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terça-feira, 29 de janeiro de 2013

“Mas quem terá escrito coisas tão belas sobre a Mãe de Deus?”

Capa

“Mas quem terá escrito coisas tão belas
sobre a Mãe de Deus?”
Santo Afonso Maria de Ligório [vide quadro] deixou uma centena de obras, entre as quais se destaca Glórias de Maria Santíssima. Escrita em 1750, quando o santo contava 53 anos, é considerada um monumento perene de sua profunda devoção a Nossa Senhora. Este livro propiciou larga divulgação da devoção mariana e alcançou em pouco tempo 11 edições. Hoje, está traduzido em praticamente todas as línguas.
Conta-se que, já bem idoso — Santo Afonso faleceu aos 91 anos —, ele pediu a um irmão redentorista que o entretivesse com algum livro de piedade. O irmão passou então a ler Glórias de Maria Santíssima. Em pouco tempo da leitura, o santo perguntou: “Mas quem terá escrito coisas tão belas sobre a Mãe de Deus?” O religioso olhou a capa e leu o nome do autor: Afonso Maria de Ligório. Em sua humildade, o santo mudou de assunto...
Eis um trecho da oração composta pelo santo autor, rogando proteção da Santíssima Virgem para essa obra:
“Ó minha caríssima Rainha, aceitai este livro e protegei-o como propriedade vossa. Mas ficai ciente de que por este pequeno obséquio exijo uma recompensa: a de amar-vos doravante mais do que no passado, e que cada um daqueles em cujas mãos for parar o livro, fique abrasado de vosso amor. Que nele aumente de repente o desejo de amar-Vos e de Vos ver amada por todo o mundo. Que de todo coração se ocupe em espalhar e promover vossos louvores e a confiança em vossa poderosíssima intercessão. Amém. Assim espero. Assim seja”.
É com os mesmos votos que transcrevemos para os leitores de Catolicismo — neste mês de maio, mariano por excelência — trechos escolhidos da primeira parte de Glórias de Maria Santíssima, intitulada Explicação da Salve Rainha — Das abundantes e numerosas graças dispensadas pela Mãe de Deus aos que a servem devotamente [vide quadro].
Esse livro constitui um precioso tesouro. E oferecendo-o parcialmente aos nossos leitores, estamos colocando em suas mãos as valiosíssimas jóias espirituais nele contidas para se alcançar a salvação eterna.
Sirvam elas, pois, de incitamento a uma crescente devoção mariana, sinal inequívoco de predestinação, como o leitor verá confirmado pelo próprio santo ao dizer que “é impossível que se perca um devoto de Maria, que fielmente a serve e a Ela se encomenda”.
Com pequenas adaptações, o texto a seguir foi extraído da tradução da mencionada obra publicada pela Editora Vozes Ltda. (V edição, Petrópolis, RJ, 1957).
A Direção de Catolicismo

Santo Afonso Maria de Ligório
Nasceu em Marianella (Itália), em 1696. Aos 17 anos, tornou-se doutor em Direito Civil e Canônico, exercendo brilhante carreira de advogado, sendo considerado o melhor partido do reino de Nápoles. Sua juventude foi piedosa, estudiosa e caritativa. Contudo, abandonou todas as glórias do mundo por amor de Deus a fim de se dedicar inteiramente à salvação das almas. Diante do altar de Nossa Senhora fez o voto de se tornar religioso. Ordenado sacerdote em 1726, consagrou-se à pregação. Grande devoto da Santíssima Virgem, doutor por excelência da moral católica, em 1732 fundou a Congregação dos Redentoristas.
Em 1762 foi nomeado bispo de Santa Ágata dos Godos, localidade próxima de Nápoles. Ato contínuo empreendeu visitas à sua diocese, pregações em todas as paróquias e a reforma do clero. Faleceu em 1787, tendo sido elevado à honra dos altares pelo Papa Gregório XVI em 1839. Declarado por Pio IX Doutor excelente e luz da Santa Igreja.

Rainha cheia de doçura e de clemência,
sempre inclinada a favorecer
e fazer bem a nós, pobres pecadores.

“SALVE, RAINHA,
MÃE DE MISERICÓRDIA”
Tendo sido a Santíssima Virgem elevada à dignidade de Mãe de Deus, com justa razão a Santa Igreja a honra, e quer que seja honrada por todos com o título glorioso de Rainha. Se o Filho é Rei — diz o Pseudo Atanásio — justamente a Mãe deve considerar-se e chamar-se Rainha.
Desde o momento que Maria aceitou ser Mãe do Verbo Eterno — diz São Bernardino de Siena —, mereceu tornar-se Rainha do mundo e de todas as criaturas. Se a carne de Maria, conclui Arnoldo abade, não foi diversa da de Jesus, como, pois, pode a Mãe ser separada da monarquia do Filho? Por isso deve julgar-se que a glória do reino não só é comum entre Mãe e o Filho, mas também que é a mesma para ambos.
Se Jesus é Rei do Universo, do Universo também é Maria Rainha — escreve Roberto abade. De modo que, na frase de São Bernardino de Siena, quantas são as criaturas que servem a Deus, tantas também devem servir a Maria.
Por conseguinte, estão sujeitos ao domínio de Maria os anjos, os homens e todas as coisas do Céu e da Terra, porque tudo está também sujeito ao império de Deus. Eis por que Guerrico abade lhe dirige estas palavras: “Continuai, pois, a dominar com toda a confiança; disponde ao vosso arbítrio dos bens de vosso Filho; pois, sendo Mãe, e Esposa do Rei dos reis, pertence-vos como Rainha o reino e o domínio sobre todas as criaturas”.
Maria é Rainha de Misericórdia
Maria é, pois, Rainha. Mas saibamos todos, para consolação nossa, que é uma Rainha cheia de doçura e de clemência, sempre inclinada a favorecer e fazer bem a nós, pobres pecadores. Quer por isso a Igreja que a saudemos nesta oração com o nome de Rainha de Misericórdia. O próprio nome de rainha — considera Santo Alberto Magno — denota piedade e providência para com os pobres, enquanto o de imperatriz dá ares de severidade e rigor. A magnificência dos reis e das rainhas consiste em aliviar os desgraçados, diz Sêneca. Enquanto os tiranos governam tendo em vista apenas seus interesses pessoais, os reis devem procurar o bem de seus vassalos. Por isso na sagração dos reis se lhes unge a testa com óleo. É o símbolo da misericórdia e benignidade de que devem estar animados para com seus súditos.
Devem, pois, os reis empenhar-se principalmente nas obras de misericórdia, mas sem omitir, quando necessária, a justiça para com os réus. Não assim Maria. Se bem que seja Rainha, não é rainha de justiça, zelosa do castigo aos malfeitores. É Rainha de Misericórdia, inclina só à piedade e ao perdão dos pecadores. Por isso deseja a Igreja que expressamente lhe chamemos Rainha de Misericórdia. [...]
Quanta não deve ser, pois, a nossa confiança nesta Rainha, sabendo nós quanto Ela é poderosa perante Deus e cheia de misericórdia para com os homens![...]
Recorramos, pois, e recorramos sempre à proteção desta dulcíssima Rainha, se queremos seguramente salvar-nos. Espanta e desanima-nos a visão de nossos pecados? — Lembremo-nos então que Maria foi eleita Rainha de Misericórdia, precisamente para, com sua proteção, salvar os maiores e mais abandonados pecadores que a Ela se recomendam. [...]
Maria é nossa Mãe espiritual
O pecado, quando privou a nossa alma da divina graça, privou-a também da vida. Estávamos, pois, miseravelmente mortos, quando veio Jesus, nosso Redentor, com excessiva misericórdia e amor, restituir-nos a vida pela sua morte na cruz. Ele mesmo o declarou: “Eu vim para elas (as ovelhas) terem a vida, e para a terem em maior abundância” (Jo 10, 10). [...]
Se Jesus é Pai de nossas almas, Maria é a Mãe. Pois concedendo-nos Jesus, deu-nos Ela a verdadeira vida. Em seguida proporcionou-nos a vida da divina graça, quando ofereceu no Calvário a vida do Filho pela nossa salvação. Em duas diferentes ocasiões tornou-se, portanto, Maria nossa Mãe espiritual, como ensinam os Santos Padres. [...]
Jesus quis ser o único a morrer pela redenção do gênero humano. “Eu calquei o lagar sozinho” (Is 63, 3). Mas viu como Maria desejava ardentemente tomar parte na salvação dos homens. Decidiu então que Ela, com o sacrifício e a oferta da vida do seu mesmo Jesus, cooperasse para nossa salvação, e deste modo viesse a ser Mãe de nossas almas. [...]
Maria, imitando nisto Nosso Senhor Jesus Cristo, com seus benefícios e favores dá a quem a ama o seu amor duplicado.
Maria é Mãe muito solícita e desvelada
“Eu sou a Mãe do belo amor” — diz Maria (Ecli. 24, 24). O amor de Maria — observa certo autor — embeleza nossas almas aos olhos de Deus e leva essa amorosa Mãe a nos ter por filhos. Onde está a Mãe, pergunta São Boaventura, que ame seus filhos e vele sobre eles como vós, dulcíssima Rainha, nos amais e cuidais de nosso adiantamento espiritual? [...]
Em todas as batalhas com o inferno seremos sempre vencedores seguramente, se recorrermos à Mãe de Deus e nossa, dizendo e repetindo: “Sob a tua proteção nos refugiaremos, ó Santa Mãe de Deus!” [...]
Alegrai-vos, portanto, todos os que sois filhos de Maria. Sabei que Ela aceita por filhos seus quantos o querem ser. Exultai! Como temer por vossa salvação, tendo esta Mãe que vos defende e protege?
Grandeza do amor de Maria para conosco
Maria não pode deixar de amar-nos. Se, pois, Maria é nossa Mãe, consideremos quanto Ela nos ama. O amor dos pais para com os filhos é um amor necessário. E esta é a razão — adverte Santo Tomás — por que, pondo a divina lei preceito aos filhos de amarem os pais, não pôs preceito expresso aos pais de amarem os filhos. Pois o amor aos próprios filhos é amor com tanta força imposto pela própria natureza, que mesmo as feras mais cruéis — como disse Santo Ambrósio — não podem deixar de amá-los.
Contam os naturalistas que até o tigre, ouvindo o bramido dos filhotes capturados pelos caçadores, se lança ao mar e vai nadando até o navio em que os levam. Se, pois, nem os próprios tigres se esquecem de sua prole — diz nossa Mãe terníssima —, como poderei eu esquecer-me de meus filhos? “Pode acaso uma mulher esquecer sua criança de braço, de sorte que não tenha compaixão do filho de suas entranhas? Mas se ela a esquecer, eu todavia não me esquecerei de ti” (Is 49, 15). “E se em algum tempo — continua a Virgem — se desse o caso de uma mãe se esquecer de um filho, não é possível que eu cesse de amar uma alma, de que sou Mãe”. [...]
Reuníssemos nós, enfim, o amor de todas as mães a seus filhos, de todos os esposos às suas esposas, de todos os anjos e santos para com seus devotos, não igualaria todo esse amor ao que Maria tem a uma só alma. É mera sombra o amor de todas as mães aos seus filhos, quando comparado ao de Maria para conosco, diz o Padre Nieremberg. Muito mais nos ama Ela só — diz o mesmo padre —, do que amam uns aos outros os anjos e santos. [...]
É notório que Maria foi solícita para com todo o gênero humano. É, portanto, muito recomendável a prática de alguns devotos de Maria, os quais — como refere Cornélio a Lápide — costumam pedir ao Senhor lhes conceda aquelas graças, que para eles lhe pede a Santíssima Virgem. E com razão, diz o citado a Lápide, pois a nossa Mãe deseja-nos bens maiores do que nós mesmos poderíamos desejar.
O devoto Bernardino de Busti afirma que Maria deseja fazer-nos bem, e conceder-nos favores, ainda mais do que nós desejamos recebê-los. Segundo Santo Alberto Magno, aplicam-se essas palavras do livro da Sabedoria: “Ela se antecipa aos que a desejam e se lhes patenteia primeiro” (Sab. 6, 14). Antecipa-se Maria a quantos a Ela recorrem, para que a encontrem antes que a busquem. “É tal o bem-querer alvoroçado desta Mãe, diz Ricardo, que vem logo ao nosso socorro e descobre as nossas precisões. Tão boa Mãe é, pois, Maria para todos, até para os ingratos e indiferentes que pouco a invocam e amam! Que Mãe será então para aqueles que a amam e com freqüência a invocam?” “Os que a amam encontram-na facilmente” (Sab. 6, 12). [...]
Tem, pois, razão São Boaventura ao exclamar: “Bem-aventurados aqueles que têm a dita de ser fiéis servos e amantes desta Mãe amantíssima!” Sim, porque esta gratíssima Rainha não admite que a vençam em amor os seus devotos servidores. Maria, imitando nisto Nosso Senhor Jesus Cristo, com seus benefícios e favores dá a quem a ama o seu amor duplicado. Exclamarei, pois, com o inflamado Santo Anselmo: “Sempre arda por vós o meu coração, e toda a minha alma se consuma no vosso amor, ó Jesus, meu amado Salvador, ó Maria, minha amada Mãe. Concedei, pois ó Jesus e Maria, a graça de amar-Vos, já que sem a vossa graça não posso fazê-lo. Concedei à minha alma pelos vossos merecimentos, não pelos meus, que eu vos ame quanto vós mereceis. Ó Deus tão amante dos homens, vós pudestes morrer pelos vossos inimigos. E a quem vo-la pede, poderíeis negar a graça de amar a vós e a vossa Mãe?” [...]
Maria também é Mãe dos pecadores arrependidos
"Por mais culpado que seja um homem, se vem a mim com sincero arrependimento, estou sempre pronta a acolhê-lo"

Maria garantiu a Santa Brígida que é Mãe não só dos justos e inocentes, mas também dos pecadores que se querem emendar. Se, desejoso de emenda, recorre um pecador a esta Mãe de Misericórdia, oh, como a encontra pronta para o abraçar e socorrer, ainda mais do que se fosse sua mãe corporal. Era justamente o que o Papa Gregório VII escrevia à princesa Matilde: “Desiste da vontade de pecar e acharás Maria, eu o garanto, mais pronta em amar-te do que tua própria mãe”.
Portanto, quem aspira ser filho desta grande Mãe, é preciso que primeiro deixe o pecado, e depois será sem dúvida aceito por filho. [...]
Mas como ousará chamar-se filho de Maria quem tanto a desgosta com a sua má vida? Certo pecador disse um dia a Maria: “Mostra que és minha Mãe?” E a Virgem lhe respondeu? “Mostra que és meu filho!” Um outro, invocando-a, chamava-lhe Mãe de Misericórdia. Mas Ela lhe disse: “Vós, os pecadores, quando quereis que vos ajude, me chamais de Mãe de Misericórdia; e depois por vossos pecados não cessais de me fazer Mãe de misérias e de dores”. [...]
Efeitos do amor de Maria para com os pecadores
Suponhamos que uma mãe soubesse que dois filhos seus eram inimigos mortais, intentando um tirar a vida do outro. Em tal conjuntura não seria dever de toda boa mãe procurar encarecidamente como pacificá-los? Assim pergunta Conrado de Saxônia. “Ora, Maria é Mãe de Jesus e Mãe dos homens. Aflige-se quando vê um pecador inimizado para com Jesus e tudo faz por reconciliá-lo com seu divino Filho”.
Do pecador só exige a benigníssima Rainha que se recomende a Ela e tenha o propósito de emendar-se. Vendo-o a seus pés a implorar-lhe perdão, não olha para o peso de seus pecados, mas para a intenção com que se apresenta. Se esta é boa, nem que o pobre haja cometido todos os pecados do mundo, abraça-o e como terna Mãe, não desdenha curar-lhe as chagas que traz na alma. Pois é Mãe de Misericórdia, não só de nome, senão de fato, e em verdade tal se mostra pela ternura e pelo amor com que nos socorre. A própria Virgem Santíssima assim o revelou a Santa Brígida. “Por mais culpado que seja um homem, se vem a mim com sincero arrependimento, estou sempre pronta a acolhê-lo. Não considero a enormidade de suas faltas, mas tão somente as disposições do seu coração. Não recuso ungir e curar as suas feridas, porque me chamo e realmente sou Mãe de Misericórdia”.
É Maria a Mãe dos pecadores que se querem converter. Como tal não pode deixar de compadecer-se deles. Parece até que sente como próprios os males de seus pobres filhos. A cananéia, ao pedir que o Senhor lhe livrasse a filha do demônio que a atormentava, disse-lhe: “Senhor, Filho de David, tem compaixão de mim; minha filha está muito atormentada pelo demônio” (Mt 15, 22). Mas se a filha, e não a mãe, era atormentada pelo demônio, parece que deveria dizer: “Senhor, tem piedade de minha filha!” Mas não; ela disse: “Tem compaixão de mim” e com muita razão. Pois sentem as mães como próprios os sofrimentos dos filhos. Ora, do mesmo modo, disse Ricardo de São Lourenço, pede Maria a Deus quando intercede por qualquer pecador que a Ela recorre. Pede-lhe que dela se compadeça. Meu Senhor — parece dizer-lhe — esta pobre alma, que está em pecado, é minha alma; por isso compadecei-vos não tanto dela, como de mim, que sou sua mãe. [...]
* * *
Salve Rainha
Alguns atribuíram esta maravilhosa oração ao Bispo Ademar de Puy (+ 1098). Mas seu verdadeiro autor é Hermano Contracto (+ 1054), monge beneditino do convento de Reichenau, no lago de Constança. Certamente também é dele a admirável melodia da Salve Rainha. Já os primeiros cruzados cantaram-na em 1099, prova de que era conhecida pelo povo. Nos sécs. XII e XIII o costume de cantá-la logo após as Completas difundiu-se cada vez mais. Faziam-no igualmente os Cistercienses desde 1218 e os Dominicanos desde 1226. Em 1239, o Papa Gregório IX introduziu esse cântico nas igrejas de Roma. Encaminhavam-se os monges, de velas acesas, para um altar lateral e ali o entoavam. No início, o hino dizia: Salve, Rainha de Misericórdia. No século XVI foi-lhe introduzida a palavra Mãe. Desde então se lê no Breviário Romano: Salve, Rainha, Mãe de Misericórdia. As palavras finais da Salve Rainha — “Ó clemente, ó piedosa, ó doce sempre Virgem Maria” —, acrescentadas em 1146, são atribuídas a São Bernardo de Claraval, por ocasião de um êxtase na Catedral de Speyer, na Alemanha.
Salve Rainha, Mãe de Misericórdia,
vida, doçura e esperança nossa, salve!
A Vós bradamos, os degredados filhos de Eva!
A vós suspiramos, gemendo e chorando, neste vale de lágrimas!
Eia, pois, advogada nossa,
esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei.
E depois deste desterro, mostrai-nos Jesus, bendito fruto de vosso ventre,
ó clemente, ó piedosa, ó doce sempre Virgem Maria.
Rogai por nós, Santa Mãe de Deus,
para que sejamos dignos das promessas de Cristo!


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domingo, 20 de janeiro de 2013

20 de janeiro 1842: aparição de Nossa Senhora do Milagre ao hebreu Ratisbonne. A felicidade da despretensão, da pureza e da admiração

20 de janeiro 1842: aparição de Nossa Senhora do Milagre ao hebreu Ratisbonne. A felicidade da despretensão, da pureza e da admiração

Igreja onde aconteceu o milagre
A poucas quadras da famosa Piazza di Spagna, bem no centro históirco de Roma, e ao lado da sede da Congregação para a Evangelização dos Povos, encontra-se a igreja Sant'Andrea delle Frate.

Neste santuário deu-se um fato extraordinário: Nossa Senhora apareceu a um rico e famoso judeu, Afonso Ratisbonne, o qual portava uma Medalha Milagrosa não por devoção, convertendo-o a Cristo.

No altar em que a Virgem Santíssima (la Madonna) lhe apareceu, havia um quadro de São Miguel Arcanjo golpeando o demônio, que pode ser apreciado ainda hoje, mas em outro local da igreja.

Foi neste mesmo altar da Aparição que São Maximiliano Kolbe, falecido no tristemente famoso campo de concentração nazista de Auschwitz, celebrou sua primeira Missa no dia 29-4-1919.

O quadro da Madonna del Miracolo (Nossa Senhora do Milagre) aparece com a fronte encimada por uma coroa e por um resplendor em forma de círculo de 12 estrelas.
Nossa Senhora do Milagre, igreja de Sant'Andrea delle Frate, Roma, detalhe
Nossa Senhora do Milagre, igreja de Sant'Andrea delle Frate, Roma

A fisionomia é discretamente sorridente, com o olhar voltado para quem estiver ajoelhado diante d’Ela. Muito afável, mas ao mesmo tempo muito régia.

Pelo porte, dá impressão de uma pessoa alta, esguia sem ser magra, muito bem proporcionada e com algo de imponderável da consciência de sua própria dignidade.
Veja vídeo
VIDEO: Na. Sra. do Milagre
Tem-se a impressão de uma rainha, muito menos pela coroa do que pelo todo d’Ela, pelo misto de grandeza e de misericórdia.

A pessoa que a contempla tende a ficar apaziguada, serenada, tranqüilizada, como quem sente acalmadas as suas más paixões em agitação.


A meu ver o elemento mais tocante desta imagem é este aspecto apaziguador. Como se Ela dissesse:
“Meu filho, Eu arranjo tudo, não se atormente, estou aqui ouvindo a você que precisa de tudo, mas Eu posso tudo, e o Meu desejo é de dar-lhe tudo. Portanto, não tenha dúvida, espere mais um pouco, mas atendê-lo-ei abundantemente. Eu para você não tenho reservas, não tenho recusas, não tenho nem recriminações pelos seus pecados. Eu lhe estou olhando num estado de alma, numa disposição de ânimo, por onde você de Mim consegue tudo o que você pedir, e muito mais ainda”.

A pintura tem um certo ar de mistério, mas um mistério suave e diáfano. Seria como o mistério de um dia com um céu muito azul, em que se pergunta o que haverá para além do azul.

Mas não é um mistério carregado, é um mistério que fica por detrás do azul e não por detrás das nuvens. Um mistério como quem diz o seguinte:
Imagem do arcanjo São Miguel que estava no altar do milagre
Imagem do arcanjo São Miguel que estava no altar do milagre
“Se você conhecesse o dom de Deus, se você soubesse quanta coisa Eu tenho para lhe dar, e que maravilhas há em Mim, aí é que você compreenderia. Eu estou notando essas maravilhas e transbordo do desejo de as dar a você. Como você compreenderia bem o que Eu sou se você quisesse abrir os olhos para essas maravilhas”.

E esse apaziguamento que Ela comunica é uma espécie de primeiro passo para a pessoa que queira se deixar maravilhar, para a pessoa, recebendo esta misteriosa ação da graça, começar a admirar e procurar perguntar o que há nEla, o que Ela está exprimindo, o que Ela diz.

Diante deste altar ocorreu, no dia 20 de janeiro de 1842, a miraculosa conversão ao catolicismo do judeu Afonso Ratisbonne

Notem a impressão de pureza que o quadro transmite. Ele comunica algo do prazer de ser puro, fazendo compreender que a felicidade não está na impureza, ao invés do que muita gente pensa. É o contrário.

Possuindo verdadeiramente a pureza, compreende-se a inefável felicidade que ela concede, perto da qual toda a pseudo felicidade da impureza é lixo, tormento e aflição.

Notem também a humildade. Ela revela uma atitude de rainha, mas fazendo abstração de toda superioridade sobre a pessoa que reza diante d’Ela.

Trata a pessoa como se tivesse proporção com Ela; quando nenhum de nós tem essa proporção, nem mesmo os santos.
Nossa Senhora do Milagre, igreja de Sant'Andrea delle Frate, Roma, detalhe
Nossa Senhora do Milagre, igreja de Sant'Andrea delle Frate, Roma, detalhe
Entretanto, se aparecesse Nosso Senhor Jesus Cristo, Ela ajoelhar-se-ia para adorar Aquele que é infinitamente mais. Ela tem a felicidade inefável da despretensão e da pureza.

Diante de um mundo que o demônio vai arrastando para o mal, pelo prazer da impureza e do orgulho, a Madonna del Miracolo comunica-nos esse prazer da despretensão e da pureza.

É um chamar a Si suavissimamente, sem pito nem recriminação, mas como quem diz:
“Meu filho, você se lembra dos tempos primitivos de sua inocência? Você não se lembra antes de você ter pecado como você era? Você não se lembra que havia coisas dessas em você? Eu lhe ofereço isso. Eu o restauro! Abra-se para Mim, olhe para Mim. Eu lhe dou isso. Venha! No caminho que conduz a Mim só existe perdão, bondade e atração. Venha logo!”

Não é difícil a gente estabelecer uma relação desses traços apresentados aqui não no aspecto militante de Nossa Senhora enquanto esmaga a cabeça da serpente, mas no seu aspecto materno, enquanto Ela procura tirar – pelo sorriso – das garras da impiedade, aqueles que o materialismo e a sensualidade moderna vão vitimando.

E, dessa maneira, fazendo uma altíssima obra de em entido contrário, i. é, de conversão para a Igreja Católica em toda sua beleza hierárquica e sacral.

É ou não é verdade que o espírito que se deixa impressionar por essa imagem, que se deixa influenciar por essa imagem, fica sumamente propício à admiração?
Busto do ebreo Ratisbonne, convertido e tornado sacerdote
Busto do ebreo Ratisbonne, convertido e tornado sacerdote

Fica sumamente propício a admirar a hierarquia das coisas mais altas sobre ele, sumamente propício – pela sua própria dignidade – a querer que todas as coisas abaixo dele estejam em hierarquia também?

Debaixo desse ponto de vista,o quadro é de altíssima expressão quanto a um dos aspectos de Nossa Senhora: sua permanente ação contra a revolta igualitária e sensual, até chegar o fim do mundo.

Isso seria um pouco de comentários com alguma vantagem para nossas almas.

Pelo menos, talvez essa: explicar um pouco aos mais jovens como analisar uma imagem, o que procurar quando se vê uma imagem, qual é o bom efeito que ela pode produzir em nós, e o estado de alma que uma imagem – simplesmente por existir – pode comunicar às nossas almas.

(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, 20 de janeiro de 1976. Sem revisão do autor. pliniocorreadeoliveira.info)

http://aparicaodelasalette.blogspot.pt