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sexta-feira, 23 de agosto de 2013

A vida de intimidade com Maria Santíssima


 
  
 
  
 
Sob este título trataremos, não somente do fim da devoção para com a divina Mãe de Jesus, mas do fim mesmo de toda a religião e de todas as criaturas.No Apocalipse Deus chamou-se o principium et finis (Apoc. 1.8), o princípio e o fim de tudo: isto é, da devoção, assim como o é de todas as obras humanas.Ele é então o fim de nosso amor para Maria, como também é o princípio. O princípio de toda obra sobrenatural é, de fato, a graça. Ora, só Ele é o autor e a fonte da graça. Nele nós a devemos procurar e após tê-la obtido, pela via e pelos meios, que indicaremos mais adiante, é ainda a Ele que ela deve voltar, carregada de méritos.É o que veremos, estudando sucessivamente Jesus Cristo em si mesmo, em nós e no próximo.




Capítulo I

NOÇÕES FUNDAMENTAIS

Antes de tratarmos as questões puramente doutrinais, nós exporemos aqui algumas noções gerais, de um importância capital, das quais nos devemos compenetrar, para melhor comprender a extensão e o fim dessas páginas, onde vão colocar-se sob nosso olhar as questões mais delicadas e mais elevadas sobre nossos mistérios e sobre nosso dogma.

Rogamos ao leitor não passar adiante, sem se compenetrar destas noções que resumiremos nos cinco princípios seguintes:

PRIMEIRO PRINCÍPIO:
Nossos dogmas são a fonte da piedade, pelo conhecimento que conferem de seu objeto e pelos sentimentos que inspiram.

SEGUNDO PRINCÍPIO:Os mistérios, conquanto que incompreensíveis, nos põem em contato com o objeto que eles encerram, e que é uma iniciação à vida sobrenatural.

TERCEIRO PRINCÍPIO:A primeira resolução de toda alma que quer honrar a Maria, deve ser, não somente amá-lA, mas antes de tudo estudá-lA.

QUARTO PRINCÍPIO:A vida de intimidade não é um caminho particular pois ela foi indicada pelo Senhor para todos os homens, mas pode tornar-se uma devoção particular, concentrando ali suas forças e seus esforços.

QUINTO PRINCÍPIO:A vida de intimidade com Maria abrange todo o dogma da economia da graça, reunindo admiravelmente o fim, o caminho e os meios da salvação, indicados por Nosso Senhor.

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PRIMEIRO PRINCÍPIO

Nossos dogmas são a fonte da piedade,
pelo conhecimento que conferem de seu objeto
e pelos sentimentos que inspiram.

Pensa-se exageradamente que a parte dogmática da religião é fria, sem alma e puramente especulativa.

Há nisto um erro tão sem fundamento quão funesto para a piedade. Esta falsa idéia da "Dogmática" provém da distração, do espírito de dissipação com que se faz a leitura de livros deste gênero.

Nos dogmas há belezas, há sentimentos que se assemelham a estas cores delicadas que um dia nublado desfigura. Não se deve lê-los sem meditar e sem orar, porque, para penetrar as coisas divinas, é preciso ter um senso divino, e é o Espírito Santo quem no-lo dá.

Sem recolhimento e sem oração não se pode compreender as belezas, nem sentir o calor das verdades dogmáticas.
O dogma nos ensina a conhecer a Deus. Ora, que há que possa ser comparável a Deus?... Deus, perfeição infinita, beleza suprema, fonte e alimento de toda vida!
E conhecer a Deus é ver como este Ser de Majestade nos ama, a nós tão pequenos; é saber que Ele nos convida a gozar de Sua beatitude; e que de certo modo fazendo-nos participantes de Sua própria natureza, nos dá direito a que o chamemos: "Meu Pai!"
Bem compreendidas, estas grandes verdades trazem verdadeiros jatos de luz e de calor, nos quais a nossa alma vai haurir os sentimentos da mais terna e mais elevada piedade.
Aqui a imaginação encontra seus carinhos; a esperança, os seus anelos; a generosidade, os impulsos de grandes dedicações e o amor exulta invejando santamente crescer e embelezar-se, para se aproximar do objeto que ama e ao qual quer agradar.
Como vedes, Deus não é somente a fonte da piedade, porque Ele no-la dá, mas é também porque as verdades dogmáticas, através das quais Ele se nos manifesta, são o verdadeiro alimento desta piedade. Meditar estas verdades é nutrir-se de Deus.
Quando o verão nos apresenta os campos repletos de trigo sazonado, nós dizemos: eis aí a vida do homem; de igual modo, contemplando as verdades da religião, pode dizer-se: eis aqui a vida da alma.

SEGUNDO PRINCÍPIO

Os mistérios, conquanto que incompreensíveis,
nos põem em contato com o objeto que eles encerram,
e que é uma iniciação à vida sobrenatural.
Em matéria de religião, as verdades mais abstratas, os mistérios mais profundos têm o seu lado prático. Alguns poderiam imaginar que ocupar-se de coisas incompreensíveis, como são os mistérios, é agitar-se no vácuo, sem nada apreender.
Esta, é uma objeção feita por certos sábios modernos, mas que está em plena contradição com os seus próprios atos. Se lhes acontece lançar um olhar distraído sobre os nossos dogmas, imediatamente gritam: isto é muito subtil, demais misterioso!
Mas, então, ó sábios inconsequentes, se a subtilidade e a profundeza são defeitos, porque então fazeis vós vossas investigações ao microscópio, para chegar até as mais secretas profundezas das coisas?...
Quantas investigações engenhosas, que de raciocínios subtis, para estabelecer vossas descobertas!...
E tendes razão.
Mas, como é que nós não temos razão, quando empregamos vossos métodos, para um objeto de uma importância muito maior?... Humildemente confessai que é somente a vossa ignorância a respeito dos nossos mistérios que vos faz desdenhá-los.
Quereríeis compreender no ser Infinito o que nem sequer sois capazes de compreender em um átomo.
Logo, distingui bem: os mistérios não são subtilezas: são simplesmente verdades, acima de nossa razão; mas verdades reais, vivas, incompreensíveis quanto ao fundo, mas não quanto às noções que delas Deus mesmo nos dá.
Os mistérios ocultam realidades e realidades compreensíveis. Deus nos revela o mistério, não para que nós o penetremos, o que nos é impossível, mas para nos pôr em contato com o objeto que ele encerra.
E qual é este objeto?
É a iniciação à vida sobrenatural.
Quantas luzes, por exemplo, não brotariam do mistério da Encarnação, da Redenção, da SS. Trindade, da graça, etc... quantos jatos luminosos, que esclareceriam tudo, que iluminariam tudo, fazendo-nos entrever a divindade e as sublimes relações existentes entre ela e nós.
Estes mistérios esclarecem tudo; entretanto eles mesmos permanecem impenetráveis aos nossos olhos. É o que nos mostra a necessidade de estudar o dogma, de contemplar os mistérios, afim de que a luz e o calor que deles dimanam nos aclarem e aqueçam.

TERCEIRO PRINCÍPIO

A primeira resolução de toda alma que quer honrar a Maria,
deve ser, não somente amá-lA, mas antes de tudo estudá-lA.
Uma lacuna muito comum da piedade em geral, e em particular para com Maria Santíssima, diz muito bem um profundo teólogo e ilustre escritor (Pe. Sauvé. SS.Culto do Coração de Maria C.V) é não ser bastante esclarecida sobre o inefável objeto que ela venera, é contentar-se com afeições que com o tempo podem esgotar-se ou pelo menos enfraquecer-se.
Tendo no espírito uma débil força, apenas esfriadas as primeiras impressões do fervor, o coração e a vida começam a sentir esta pobreza doutrinal.
Eis porque a primeira resolução de toda alma que quer honrar a Maria, deve ser estudá-lA, e estudá-lA com toda a sua alma.
Se é necessário procurar a verdade por todos os meios, é também a verdade que diz ser à Maria que se devem aplicar estas palavras; como ocupar-se de Maria, de seu amor, sem fazê-lo de todo o coração?...
Deste modo nascerá necessariamente o pensamento vivo e habitual de nossa Mãe, e este pensamento que produzirá o amor.
Em Deus o Verbo respira o amor - Verbum spirans amorem.
Em nós o pensamento de Maria deve respirar o amor.
Sem este estudo a devoção para com a Santíssima Virgem é necessariamente incompleta e superficial.
"Nós, diz ainda o Pe. Sauvé - obra citada - fazemos de Maria uma idéia fraca, pálida, incompleta. Maria Santíssima está em um canto da vida, em um altar lateral da alma, quando deveria ocupar aí o altar principal, unida a Jesus como a Mãe é unida ao Filho, no mistério da Encarnação ou de Belém, como a nova Eva ao novo Adão, sobre o Calvário e reinando com Ele em toda a parte".
Tal deve ser pois a primeira prática do nosso culto para com Maria: estudá-lA, para que deixemos de vez esta concepção indigna de Suas grandezas e de Seu amor.

QUARTO PRINCÍPIO

A vida de intimidade não é um caminho particular pois ela foi indicada pelo Senhor para todos os homens, mas pode tornar-se uma devoção particular, concentrando ali suas forças e seus esforços.
Para provar esta asserção, basta compreender bem o ensino de Nosso Senhor, ao nos lembrar continuamente a necessidade de estarmos unidos a Ele, para vermos em seguida o que é uma devoção particular.
Estas duas questões receberão o seu plano de desenvolvimento nos domínios deste estudo. Resumamo-las aqui sucintamente, para que a sua idéia esteja continuamente presente desde esse instante e esclareça as páginas que seguem.
Para provar que a vida de intimidade foi ensinada por Jesus Cristo, basta provar que Ele é o tronco, e nós somos os ramos. (S.João XV. 5)
Do mesmo modo que os ramos não podem produzir frutos, se não estão unidos ao tronco, também nós nada podemos, se não estamos unidos a Ele. (S.João XV. 5)
E orando ao Seu Pai por nós, Ele assim diz: "Meu Pai... que o amor com que amaste esteja neles". (S. João XVII. 26) Já no Antigo Testamento Ele se dizia o esposo de nossas almas: "Eu te desposarei e nossas núpcias serão eternas". (R.P.Coulé S.J)
A vida de intimidade não é pois uma vocação especial, mas sim o próprio fundamento e o fim do cristianismo. (S.Mateus, XI. 18)
O convite de Nosso Senhor não admite exceções: "Vinde a mim todos... (S. Mateus. XI 18) e aqueles que se julgam opressos de trabalhos, afazeres, das penas da vida, ele acrescenta: Vinde a mim todos vós que estais atarefados e afadigados, e encontrareis repouso". (S.Mateus XI. 18)
Sem dúvida, Deus não nos pede um misticismo de eremita, mas sim uma união íntima e constante com Ele, como condição essencial à vida sobrenatural.
Referindo-se a vida de intimidade, isto é verdade, como o é também, referindo-se à união com a SS.Virgem. E a razão é simples: é que Deus tendo desejado que todas as graças passassem pelas mãos imaculadas de Sua Mãe, nós devemos necessariamente, para receber estas graças ser unidos Aquele que no-las comunica.
Entretanto, é por ela que nós devemos ser unidos ao próprio Jesus. Jesus Cristo teria podido traçar-nos outro caminho, mas não o fez. Logo, o caminho único para chegar até Ele é Maria. E tanto isto é verdade, que o Beato Montfort escreveu: "aquele que diz ter Deus por pai, não querendo ter Maria por mãe, é um mentiroso e um enganador". (Vraie Devotion envers la Très S. V)
Sendo Jesus nosso modelo, é necessário que se possa dizer de nós, como se pode dizer dEle: "Maria de qua natus est Jesus". É necessário que nasçamos da Virgem, que sejamos educados por Ela, e que por Ela enfim subamos ao céu, como por Ela o Filho de Deus baixou até nós.
Considerada sob outros ponto de vista, esta prática, embora destinada a todos, pode ser o objeto de uma devoção particular.
Chama-se devoção particular a concentração de nossos esforços, reflexões e práticas, sobre um ponto determinado da religião, afim de melhor penetrá-lo e, por meio deste conhecimento mais profundo, dar-lhe todo o nosso coração.
Aqui a alma enamorada de Maria, desejosa de amá-lA cada vez mais, e com todas as suas forças, faz suas investigações sobre o mistério da vida de união com esta terna Mãe, concentra-se esforçadamente sobre este ponto e chega por assim dizer a condensar todas as suas afeições sobre esta prática.
Sem esquecer os outros mistérios, sem rejeitar as outras devoções, ela procura aplicar a esta toda a sua força e todo o seu esplendor. E isto é para ela de uma imensa vantagem, pois especializa-se nesta devoção e superioriza-se nela, do mesmo modo que um sábio, que se dedica a um ramo da ciência, em breve se torna especialista neste mesmo ramo.
Neste sentido a vida de intimidade com a Mãe de Jesus é verdadeiramente uma devoção particular e talvez a que mais agrada ao maternal coração de Maria.

QUINTO PRINCÍPIO

A vida de intimidade com Maria abrange todo o dogma da economia da graça,
reunindo admiravelmente o fim, o caminho e os meios da salvação,
indicados por Nosso Senhor.

Geralmente o dogma da graça não é bastante conhecido pelos cristãos, somente os sacerdotes, em consequência de seus estudos teológicos, conhecem todas as belezas, todas as riquezas ocultas nesta parte do dogma.
Os simples cristãos julgam que estas questões são demasiadamente abstratas, puramente especulativas, fora de prática. É um erro. A graça é a parte viva do cristianismo, é de certo modo o próprio Jesus Cristo.
O dogma da graça, sendo de uma maneira toda especial o fundamento e o fim da vida de intimidade com a Santíssima Virgem, encontrará aqui um desenvolvimento suficiente - o que raramente se encontra em obras populares - para mostrar a todos as riquezas e belezas desta divina economia, fazendo-o em uma linguagem bastante simples, para que seja por todos compreendido.
O fim da vida de intimidade com Maria outro não é senão Jesus Cristo. Ele é a cabeça; a Virgem é o pescoço; nós somos os membros unidos o pescoço e por ele a cabeça.
Tirai a cabeça, e o pescoço não tem mais razão de existir. Do mesmo modo, a união à Santíssima Virgem de nada serviria, se Ela não nos unisse ao Redentor, nossa cabeça.
O caminho a seguir é aquele que Jesus Cristo nos mostrou. Pode dizer-se que é Ele mesmo, pois tudo quanto se encontra em Maria é dEle. Digamos mais: Não está Ele mesmo em Maria e não nasceu dEla?
Unir-nos à Maria é pois unir-nos a Ele. Passar pelo caminho de Maria é ir diretamente e sem desvios ao encontro de Jesus.
E qual é o meio desta prática?
Este meio é a Encarnação. É Maria, de quem nasceu Jesus, que está encarregada de o produzir espiritualmente em nossas almas.

***
Assim, desde o início aparece claramente o princípio, a divisão, o conjunto e a perfeita concordância das três partes em que se divide esta obra.
Está traçado o nosso plano. Não é uma série de teses que estabeleceremos acerca da devoção à Santíssima Virgem; muito menos ainda é um estudo de Seu poder ou de Suas grandezas, mas simplesmente uma indicação do fim, do caminho e do meio de nossa vida de intimidade com Ela.
Este assunto, embora bem fixo aqui, é extremamente vasto, e não menos profundo. Abrange de certo modo toda a economia da graça em Jesus Cristo, em Maria e em nós.
E com efeito a ordem que seguiremos é a seguinte:
Jesus Cristo: Fonte de graça.
A Virgem Maria: Distribuidora da graça.
Nós: Necessitados e sujeitos da graça.
Jesus Cristo: O fim e a vida.
Maria: o caminho e o modelo.
Nós: os receptores e os imitadores.
Na PRIMEIRA PARTE estudaremos pois Jesus Cristo, como autor da graça. Estudá-lO-emos em si mesmo e considerado nos efeitos de Sua graça.
Na SEGUNDA PARTE consideraremos Maria no plano divino, Suas plenitudes de graça e as incomparáveis riquezas de dons celestiais com que foi embelezada.
Na TERCEIRA PARTE veremos o papel de Maria junto a Jesus, para nos comunicar a graça - para nos santificar - bem como o seu papel junto a nós, para nos elevar até Seu divino Filho e nos tornar participantes da natureza divina.
Em outros termos poderíamos resumir tudo dizendo que:
Na primeira parte tratar-se-á da graça em Jesus.
Na segunda, da graça em Maria.
Na terceira, da graça de Jesus em nós, por Maria.
A conclusão geral deve ser:
1º - Ter os olhos fixos continuadamente sobre o fim.
2º - Seguir exatamente o caminho que conduz a este fim.
3º - Empregar os meios, que nos fazem progredir neste caminho até o fim.
(Princípios da vida de intimidade com Maria Santíssima segundo os Santos, os Doutores e os Teólogos pelo Pe. Julio Maria, missionário de Nª. Srª. do SS. Sacramento, continua com o post: Natureza da Vida de intimidade)






 
 
 
  
 
Estas palavras: vida de intimidade, vida de união, vida familiar, vida íntima com a Santíssima Virgem, as quais se encontrarão sempre numa impressão agradável, espargindo em cada página deste livrinho, causam-nos em nossa alma algo de aprazível e reconfortante. É que para nós, pobres criaturas, que trazemos no espírito, no coração, na alma, aspirações para o infinito, é tão doce repousar neste pensamento da posse de Deus, da vida de intimidade com o doce Salvador de nossas almas.


Examinemos esta aspiração em seu princípio e em sua realização.
Em seu princípio, isto é, em sua origem e em seu desenvolvimento. Em sua realização, não somente na glória onde ela deverá terminar, mas mesmo no seu aperfeiçoamento aqui na terra, onde ela já nos faz participar um pouco da beatitude celeste.
Reduzamos tudo aos dois princípios seguintes:
PRIMEIRO PRINCÍPIO:
A vida de intimidade, sendo uma aspiração de nossa alma, é já uma antecipação da vida do céu.
SEGUNDO PRINCÍPIO:
Sendo a glória o aperfeiçoamento da graça, quanto mais estreita tiver sido nossa intimidade sobre a terra, tanto mais, com as devidas proporções, ela será intensa no céu.

PRIMEIRO PRINCÍPIO
A vida de intimidade, sendo uma aspiração de nossa alma, é já uma antecipação da vida do céu. Em geral, a vida de intimidade é uma das aspirações mais urgentes de nossa natureza.
Ensina a psicologia que o homem traz em si quatro inclinações sociais. Estas inclinações são as seguintes:
"A sociabilidade, ou o amor aos outros homens em geral.
As afeições familiares, que não são mais que o amor aos nossos pais.
As afeições patrióticas, ou o amor aos nossos concidadãos.
E finalmente as afeições eletivas, particulares, como a amizade, o amor."
(Compayé: Psicologia aplicada à educação, I Parte, cap. XV)
Não temos que analisar cada inclinação em particular; todas elas são uma aspiração à intimidade.
Nós amamos os homens, amamos os nossos concidadãos, amamos os nossos pais, mas todos estes amores ainda são muito vagos; a alma, porém, aspira a uma vida mais íntima, que se esforça por realizar, seja pela amizade, seja pelo amor propriamente dito.
O amor quer intimidade. Ele a quer, aqui na terra ou lá no céu. O amor terreno só pode ser parcial, imperfeito; contudo, ele pode atingir o cume, a plena realização de suas aspirações.
O amor do céu não encontrando aqui na terra nada que o satisfaça, dá-se a Deus, entrega-se ao Bem supremo, desejando uma intimidade perfeita, intimidade ideal, sem nuvens, para realizá-la pouco a pouco, pela lembrança, pelo coração e pelo espírito.
Se a vida de intimidade é uma necessidade para toda alma racional, a vida de união a Deus é uma aspiração de toda alma sinceramente cristã.
É esta necessidade que colocava nos lábios do imortal gênio de Hiponna, Santo Agostinho, estas palavras tão amorosas e tão cheias de saudade divina: "Vós nos fizestes para Vós, meu Deus, e nosso coração está inquieto, enquanto não descansar em Vós".
Já aqui na terra Deus se dá a nós. Ele se dá, mas não se deixa ver ainda.
Esta doação do tempo é envolvida em trevas e combatida por mil imperfeições. Ora, o que nos é necessário é um conhecimento que sacie o nosso espírito, repouse o nosso coração e dê à nossa alma o seu verdadeiro alimento - o próprio Deus.

"Nós havemos de vê-lO, não mais através de um espelho, como aqui na terra, mas face à face, tal qual Ele é". (São João III, 2)
Desejamos pois o céu, porque ele é posse de Deus, é a intimidade com Deus, intimidade perfeita, sem sombras. Aspiramos por ele, porque somos feitos à imagem de Deus. E, trazendo em nós esta imagem divina, desfigurada pelo pecado, nós aspiramos contemplar-Lhe o arquétipo, em toda a Sua beleza, em toda a Sua pureza e em toda a Sua glória.
Deste modo a vida de intimidade se torna uma das aspirações mais irresistíveis e mais atraentes de nosso ser. É uma necessidade de nosso coração, feito para amar e, que não encontrando na terra nenhum amor capaz de saciá-lo, eleva mais alto o seu ideal, procurando-o na beatitude eterna.
Esta aspiração é reconhecida, não somente pelas almas piedosas, mas também por todos os psicólogos, que a unem às inclinações ideais.
Com efeito, estas inclinações ideais ou superiores, referem-se a quatro objetivos: a idéia do verdadeiro, a idéia do belo, a ideia do bem e a ideia de Deus.
Esta idéia de Deus, que geralmente chamamos o sentimento religioso, resume as três primeiras aspirações, abrange-as todas e lhes comunica todo o seu valor.
Nada mais verdadeiro, mais belo e mais nobre do que Deus. Eis porque o sentimento religioso exerce sobre o homem uma influência muito mais extensa e mais forte que qualquer uma das três primeiras aspirações.
E é este sentimento, elevado a um grau intenso, que faz os santos, os verdadeiros heróis, pois todos eles souberam vencer o mundo e vencer a si próprios.
Ora, o sentimento religioso é essencialmente uma aspiração à vida de intimidade com Deus. O santo sente que por si mesmo nada pode: por conseguinte, apoia-se sobre Deus, afim de alcançar tudo e tudo poder por Aquele que o fortifica: Omnia possum in eo qui me confortat, dizia o grande Apóstolo.
Só no céu esta aspiração será plenamente satisfeita, porque lá somente é que poderemos possuí-lo, sem receio de nunca mais perdê-lo.
Lá viveremos com Ele, viveremos dEle, seremos verdadeiramente de Sua família: - será isto à verdadeira vida de intimidade que se chamará então: "visão beatifica"!
Mas até que a morte venha desligar os laços que nos prendem à terra, até que nos desembaracemos de tudo o que em nós existe de corruptível, já aqui na terra podemos fazer um esboço e de certo modo ir colocando os fundamentos de nossa intimidade já enunciado.

SEGUNDO PRINCÍPIO:
Sendo a glória o aperfeiçoamento da graça, quanto mais estreita tiver sido nossa intimidade sobre a terra, tanto mais, com as devidas proporções, ela será intensa no céu.
No céu todas as almas possuirão a Deus, todas vê-lO-ão, todas banhar-se-ão neste Oceano de amor e de eterna felicidade, mas não todas elas em igual medida, nem em iguais profundidades. - "Há muitas moradas na casa de Meu Pai", disse Nosso Senhor.
Na verdade compreende-se que a visão de Deus, a glória e a felicidade de uma seráfica Teresa de Jesus, de um apóstolo como São Francisco Xavier, de um amante da Cruz como São Pedro de Alcântara, de um pobre voluntário como São Francisco de Assis, de um apaixonado pela Santíssima Virgem como os santos Bernardos, Ligórios, Eudes, beatos de Montfort, etc... compreende-se, digo, que a glória, seja superior à de um pecador convertido na última hora.
No céu, entre as moradas de um e de outro, deve haver uma distância incalculável.
Aquele cujo coração já era na terra qual chama ardente e brilhante, cuja ambição era amar e fazer amar a Deus, receberá uma coroa mais bela, ocupará um trono mais cintilante, gozará de uma visão divina mais intensa e mais clara, do que aquele que viveu em uma espécie de apatia, não dando a Deus senão os estritos deveres, quase sem fazer obras de supererogação.
É assim que, desde agora, nós podemos e devemos pôr os fundamentos de nossa vida de intimidade no céu.
Podemos até, com o socorro da graça, fazê-la atingir uma intensidade tal que seja verdadeiramente uma antecipação da vida celestial.
"Prometendo um céu para a eternidade, diz muito bem S.João Crisóstomo, Deus já nos deseja um céu sobre a terra".
E qual é este céu?
É a vida de intimidade, como ela existia antes do pecado entre Deus e nossos primeiros pais. "O prazer (a vontade) de Deus, diz uma santa alma (Mère M. de Salles Chappuis) é fazer conosco o que Ele queria fazer antigamente antes do pecado".
"A intimidade da terra conduz verdadeiramente a intimidade do céu".
(F.Maucourant - Vida de intimidade com o bom Salvador)
E, além disso, "a felicidade do céu não é outra coisa que uma grande familiaridade com Deus, elevada a um grau que ultrapassa toda a compreensão humana", - (R.P. Coulé S.J) - e, em outras palavras, como diz Santo Tomás, "toda graça é um gérmen do que existirá na glória" e consequentemente segundo observa S. Ligório, "a caridade nos bem-aventurados revestirá a forma que o amor tinha durante a vida terrena." (S. Ligório: A verdadeira esposa)
Ao entrar no céu, o cristão não muda o coração; conserva-o somente concluído e aperfeiçoado. Lá Jesus se nós dá, como Ele o havia entrevisto e desejado aqui na terra.
"O que começardes aqui na terra, diz Bossuet, continuá-lo-eis na eternidade".
(Bossuet: Sermões)
É o que o Espírito Santo nos faz compreender por estas conhecidas palavras: "Cada um será premiado conforme tiver trabalhado". (Isaías LIII, II)

***
Em resumo, qual é então a natureza da vida de intimidade?
É uma antecipação da vida dos anjos, dos santos, que já alcançaram o céu - é um começo do que faremos eternamente na glória.
Donde se segue que esta vida de intimidade é necessária a todo cristão, desejoso de se salvar, já que esta mesma vida é a medida da glória e da felicidade que ele gozará um dia no céu.
Seria necessária outra consideração, para nos fazer amá-la, para nos impelir a praticá-la e mesmo para torná-la como que o centro e o fim de nossa vida?
Antes de prosseguirmos nesta consoladora e profunda doutrina, recolhamo-nos por alguns instantes, para recitar com amor esta pequena oração do grande São Bento, pedindo a Deus a graça desta vida de intimidade:
"Dignai-Vos, ó Pai amantíssimo, ó Deus boníssimo, dignai-Vos dar-me uma inteligência que compreenda Vossos pensamentos, um coração que penetre em Vossos sentimentos, uma energia que Vos procure e ações que aumentam a Vossa glória. Meu Deus, dai-me olhos fitos sobre Vós sem cessar, uma língua que Vos pregue, uma vida que seja inteiramente dedicada a Vosso bel prazer. Dai-me, enfim, ó meu Salvador, a felicidade de Vos contemplar um dia, face a face, com os Vossos santos".
(Oratio Sancti Benedicti)
(Princípios da vida de intimidade com Maria Santíssima segundo os Santos, os Doutores e os Teólogos, pelo Pe. Júlio Maria, continua com o post: A vida de intimidade e a graça)
http://www.espacomaria.com.br/?cat=8&id=2661
 

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