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sábado, 2 de fevereiro de 2013

‘Espiritualidade Mariana’

‘Espiritualidade Mariana’

APARECIDA – A IMAGEM DESCARTADA

9 de outubro de 2012
Nossa Senhora Aparecida
Em nossa justa preocupação com a natureza, o bem estar do ser humano, insere-se o tema dos materiais descartados, descartáveis, recicláveis. Sob o slogan do “lixo que não é lixo” aprendemos a recolher e reutilizar o que sobrou do que consumimos ou usamos. Descobrimos cada vez mais que o descartável se constitui em grande riqueza e também desperdício. Aqui podemos recordar que Jesus, após saciar a multidão com os cinco pães e dois peixinhos multiplicados, ordenou que se recolhesse o que sobrara e recolheram doze cestos cheios, a quantia de cestos simbolizando as doze tribos de Israel, os doze Apóstolos, a totalidade. Jesus funda seu Reino com as sobras de seu povo, do mesmo modo que o Pai reúne seu Povo dos restos de Israel. Moisés, Gedeão, Jeremias, Isaías, Amós, Maria, todos se consideravam incapazes, mas, a graça os preparou para a missão.
As mães caprichosas recolhem o que sobrou da mesa dos filhos e transformam-no em outra refeição com o acréscimo de novos ingredientes. Os pobres que batem à nossa porta recebem com imensa gratidão os nossos restos, que não mais são restos, mas nova refeição.
A pedra que os construtores rejeitaram, esta é que se tornou a pedra angular. Isto foi feito pelo Senhor, e é admirável aos nossos olhos” (Mc 12, 10-11). A pedra que foi jogada fora por imprestável foi necessária para o pedreiro arrematar a sustentação do arco. Muitas vezes fazemos a experiência de recolher uma peça que tínhamos jogado fora e que, para surpresa, tivemos de buscar, pois era a que faltava para o trabalho.

Nossa Senhora da Conceição Aparecida

A imagem descartada pelo artista tornou-se pedra angular da religiosidade de um povo, o povo brasileiro. Do barro o escultor tirou uma pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição. Levando-a ao forno, queimou em excesso e trincou o pescoço. Resultado: imagem enegrecida e cabeça arrancada. O artista soube o que fazer: descartou seu trabalho e jogou-o no rio Paraíba do Sul, em São Paulo.
Por volta de 1717, ao lançarem a rede, três pescadores, Domingos Martins Garcia, João Alves e Filipe Pedroso pescaram uma imagem negra, de pouca beleza, sem cabeça. Novamente a rede foi jogada um pouco mais distante e João trouxe em sua rede a cabeça da Senhora. Dali por diante, a pescaria trouxe fartura e os três amigos voltaram para casa, trazendo a imagem e contando a todos o prodígio que haviam experimentado.
Humildes, cheios de fé, depositaram a imagem numa capela na vila dos pescadores. Já por volta do ano de 1745 teve sua primeira igreja oficial, em torno da qual viria a nascer o povoado e o santuário de Aparecida. Milagres e fatos extraordinários aconteciam, e a devoção de espalhou pelos Estados vizinhos: a imagem descartada pelo artista foi por Deus escolhida para a fundação de uma cidade e santuário onde, pela intercessão da Mãe de Deus, colhem-se frutos de conversão, cura e caridade.
A rápida expansão do culto a Nossa Senhora Aparecida é um fato extraordinário e pode ser considerado um milagre, como são os outros, que gostamos de citar: a grande pesca de peixes, as velas que durante o culto se apagaram sem motivo algum e novamente se acenderam sozinhas, o escravo Zacarias que, capturado depois de uma fuga, passando pela Capela pediu misericórdia a Nossa Senhora e imediatamente as correntes que o prendiam caíram, deixando intacto o colar de ferro que pendia de seu pescoço.
A presença cada vez mais numerosa de peregrinos exigiu igrejas maiores até que, em 1946, teve início a construção do Santuário Nacional de Aparecida, com capacidade para 45.000 pessoas. Ali acorre o povo fiel cumprindo promessas, pedindo graças, participando das celebrações e, sobretudo, sendo abastecidos pela alegria de estar no Santuário da Padroeira do Brasil.
Boa parte dos romeiros é constituída de pobres, gente humilde aberta ao dom da fé. Cada um tem consciência de que ali pode entrar sem pedir licença, é sua casa. Com extraordinária alegria retornam a seus lares e narram o que viveram, viram e ouviram. De modo especial: contemplaram a pequena imagem negra da Aparecida, o trabalho descartado pelo artista e que se tornou o coração de numeroso povo que ali e por todo o Brasil expressa e vive sua fé e religiosidade cristãs.
Devotos no Santuário de Aparecida

A força dos pequenos sinais

A imagem da Virgem é negra, a cor dos escravos e de nosso povo mestiço. Um sinal forte revelado por Deus e que teve de esperar 160 anos para a abolição da chaga da escravidão no Brasil (1888) e ainda espera o dia em que não haverá preconceitos de cor e condição social.
Os bem pensantes têm por certo que tudo não passa de superstição à espera de sua desmontagem peles mentes esclarecidas. Irritam-se com a religiosidade dos pobres e fracos, mas convivem tranquilamente num país que lhes edifica condomínios onde podem viver sem o perigo e a desagradável presença dos pobres. Afirmam que são donos das luzes e do progresso, mas ignoram o quanto as faces escuras dos trabalhadores são coloridas pelo sol abrasador, pelo pó, pelo ambiente sujo onde trabalham.
Ainda não descobriram que o Deus de Jesus resiste aos soberbos, depõe os poderosos e eleva os humildes. Não percebem que sua orgulhosa descrença não é fruto de sabedoria e ciência e sim, da fé que não lhes é concedida enquanto não forem mansos e humildes de coração.
De sua parte, enquanto suam por uma vida mais digna e melhor, os peregrinos de Aparecida com carinho entoam:
Virgem santa, Virgem Bela,
Mãe amável, Mãe querida,
amparai-nos, socorrei-nos,
ó Senhora Aparecida
.
Maria leva os devotos a seu filho Jesus, o homem de Nazaré desprezado e crucificado, rejeitado pelos sábios e entendidos, mas pedra angular de um mundo que aspira por fraternidade e vida digna.
Pe. José Artulino Besen

MARIA, MÃE DE DEUS E NOSSA, NA FÉ CRISTÃ

5 de dezembro de 2011
Maria com o Menino - Mosteiro de São Bento de Aniane - França - século IX
Tudo o que se afirma de Maria tem como causa única Jesus Cristo, nela encarnado por obra do Espírito Santo. As afirmações da fé cristã sobre Maria não são invenções da piedade cristã, mas conseqüência do mistério da Encarnação, donde elas brotam. Seu início é a resposta dada ao Arcanjo Gabriel “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua Palavra” (Lc 1,38) e, depois, se prolonga nas Bodas de Caná, “Façam tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5). Maria acolhe a salvação pela obediência, pela fidelidade e pelo contínuo indicar onde está o Caminho. Nosso amor por ela segue o mesmo espírito.
Podemos dizer que, em Maria, repousou por nove meses todo o projeto divino em relação à humanidade: é a Arca da Aliança, a Escada, a Porta do Céu. Dando carne e sangue ao Filho eterno de Deus, ela uniu indissoluvelmente as naturezas humana e a divina no Cristo Senhor. Maria é o mais belo hino de ação de graças que a criação consegue oferecer a Deus: nela, humilde criatura, se oculta o mistério trinitário do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Se os textos dos Evangelhos nos descrevem, talvez, menos de três anos da vida do Senhor, Maria contemplou-o mais de 30 anos, desde o berço até a Ascensão. Abraçando-o com ternura, seu coração pulsava no ritmo do coração do Filho. O que para nós é graça que vem da fé, para Maria foi contemplação real. Seu coração guardou cada passo do Homem-Deus, a infância, a adolescência, o ingresso na vida adulta, os gestos e as palavras. É divino mistério o mistério de sua vida em Nazaré, nas festas em Jerusalém, nas visitas aos povoados à beira do lago de Tiberíades. A humilde serva do Senhor contemplou com os olhos e o coração a ação de Deus Pai em seu Filho. A casa de Maria e José era a Casa de Deus.

Os dogmas marianos

A palavra dogma significa conteúdo de fé, mas não expressa toda a realidade, pois os mistérios são insondáveis: quanto mais conhecemos, mais falta conhecer. A verdade é uma fonte que nunca se esgota: quanto mais bebemos, mais aumenta a sede e maior é a água que dela jorra. Não é porque a Igreja formula um dogma que ele expressa a verdade e sim, porque é verdade, a Igreja o proclama como dogma de fé. Podemos dizer que o dogma afirma o máximo que a inteligência e a fé humanas, iluminadas pelo Espírito Santo, podem dizer a respeito de uma verdade e, ao mesmo tempo, expressa o mínimo que se deve afirmar.
Com essa introdução queremos falar dos quatro dogmas marianos: sua Imaculada Conceição, a Maternidade divina de Maria, a Virgindade perpétua e sua Assunção ao céu.
Imaculada conceição de Maria: a primeira Eva, no Paraíso, foi criada sem pecado, mas não resistiu à tentação e rejeitou a Deus. Maria é a Nova Eva, com ela Deus restaura a criação por obra de seu Filho Jesus. Em previsão de sua Maternidade divina, quis Deus que Maria fosse preservada do pecado desde o ventre de sua mãe, Ana. E Maria respondeu a essa graça nunca pecando, sendo a vontade de Deus a sua vontade, como respondeu ao Arcanjo Gabriel, na Anunciação. O mais importante não é que Maria tenha nascido sem pecado, mas que tenha vivido sem pecado, razão pela qual o Anjo a chama de “cheia de Graça”.
Maternidade divina de Maria: Maria recebe o título de Mãe de Deus porque o Filho eterno de Deus dela recebeu a natureza humana. Jesus é Deus e Homem verdadeiro, não se podendo separar a divindade da humanidade. Por isso, cabe a Maria o título de Mãe de Deus. Negando-lhe esse título, estaríamos negando a divindade de Jesus, o Filho de Deus, ou o estaríamos dividindo em duas partes, uma divina e outra, humana.
Virgindade perpétua de Maria: ao contemplarmos o ícone de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, e tantos outros, percebemos na imagem de Maria três estrelas: uma na fronte e uma em cada ombro. Com esse símbolo a Igreja afirma que Maria é Virgem antes, durante e depois do parto. Maria não concebe de José, mas por obra do Espírito. O significado mais profundo desse dogma é que Maria teve o coração unido a Deus, sem divisões. Seu amor foi virgem na fidelidade contínua e perpétua a Deus nosso Senhor. Nenhuma infidelidade ao amor divino tocou seu coração imaculado.
Assunção de Maria aos céus: terminados os dias de sua vida terrena, Maria foi levada (assunta) aos céus. Aquela que foi preservada do pecado, sempre virgem, Mãe de Deus, teve o privilégio de ser glorificada após a vida terrena. Seu corpo, do qual se formou a natureza humana de Cristo, ficou incorruptível e logo foi transfigurado na glória da Santíssima Trindade.

Maria, nosso caminho de fé

Os dogmas são alimento de espiritualidade, e não afirmações para nosso deleite intelectual. Eles agem em nossa vida cristã.
Os dogmas marianos propõem-nos um caminho mariano: o que Deus realizou em sua pobre serva, realizará também em nós, pobres servos. Tudo por graça.
Imaculados pelo batismo – Nós nascemos no pecado, mas, pelo batismo, nos tornamos imaculados, recriados pela graça divina. Quando pecamos, peçamos logo o perdão e nosso coração se torna imaculado. Através da Eucaristia somos continuamente divinizados pelo alimento divino recebido.
Construir a maternidade – Nossa natureza humana foi santificada na natureza humana de Jesus. Por isso é sagrada. Na glória eterna da Santíssima Trindade estamos incluídos na natureza glorificada do Senhor. Na Eucaristia recebemos o Cristo Deus e Homem. Maria gerou o Senhor. Nossa vida, nossa palavra e testemunho podem gerar filhos para Deus, reconciliar os que estão dispersos: temos a graça de ser pai/mãe de novos filhos de Deus.
Virgindade renovada – Deus é fiel a nós, sempre, e nós somos infiéis a seu amor. Estamos divididos pelo pecado, pela fragilidade, pela tentação, por falsos amores, pelo medo da morte. Busquemos a virgindade espiritual, a fidelidade contínua ao Senhor. Pelo Batismo, pelo perdão e pela Eucaristia Deus nos oferece também o dom da virgindade. A cada dia podemos readquiri-la. Mesmo prostituídos, a graça recupera nossa virgindade, tira de nosso coração as divisões.
Nossa assunção aos céus – Maria foi a primeira criatura glorificada em corpo e alma. Igualmente, nós temos a graça de podermos ser glorificados no céu, junto de Deus. Deus nos dará um novo corpo, transfigurado, pois nossa primeira natureza retorna ao pó. Desejemos ardentemente o encontro final com Deus. E Maria intercede continuamente por nós para que sejamos de Deus. Como as primeiras comunidades, peçamos sempre: Vem, Senhor Jesus!
Pe. José Artulino Besen

ASSUNÇÃO DA SILENCIOSA MÃE DO REDENTOR

12 de agosto de 2011
Maria, silenciosa Mãe do Redentor - Mosteiro de Olinda PE
É de São Boaventura, teólogo, filósofo e santo a afirmação “De Maria nunquam satis”, que bem pode ser traduzida por “De Maria ainda não se falou bastante” (outros preferem “de Maria nunca se falará demais”). Por mais que os santos e o povo amem a Mãe de Jesus, nela venerem a obra prima da criação, nunca se falará o suficiente dessa humilde jovem e mulher de Nazaré, pois nela reside e se esconde o mistério da Salvação. Ao proclamarmos Maria Mãe de Deus porque Mãe do Filho de Deus, estamos mergulhando no mistério do Deus Uno e Trino, buscamos água num poço que nunca termina de manar água cristalina. Tão grande é o mistério dessa mulher que a nós mortais, conhecedores da fragilidade humana, é mais fácil dizer que dela já se falou que chega, que o importante é falar de Cristo, pois somente Ele salva.
Evidente: somente Cristo salva. E é isso o que se fortalece em nosso espírito ao falarmos do Salvador nascido de Maria. Ele é a ponte, o Pontífice, que possibilita nossa comunicação com Deus, e essa ponte é feita de divindade e de humanidade. Coube a Maria gerar o humano que se uniu ao divino, e graças à sua maternidade o Filho de Deus é Deus e Homem verdadeiro.
Em outras épocas se afirmava Maria como “inimiga de todas as heresias”: parece exagero, mas como não ser isso verdade se todas as heresias cristãs têm origem ou na negação de Jesus Homem verdadeiro ou na negação de Jesus Deus verdadeiro? Quando proclamamos Maria Mãe de Deus – a Theotókos – estamos libertando o Cristianismo de toda heresia cristológica: as que afirmam Jesus não ser humano e as que negam sua divindade. Estamos fincando nossa fé no solo firme da redenção em Cristo.
Se de Cristo nunca se falará o suficiente, também de Maria não se falou ou falará.

Silenciosa Mãe do Redentor

Na sua humildade, Maria nunca revelou o segredo de seu Filho e da maternidade divina. Mesmo suportando a humilhação sua e de seu Filho, nunca anunciou o mistério que dela brotou e nela se formou. Não tomou como afirmação pessoal proclamar que Deus a fizera Mãe do Altíssimo, do Filho de Deus.
Mãe silenciosa: ela guardava tudo em seu coração. Tanto por não querer revelar seu segredo, quanto por querer compreender melhor o segredo que de Deus recebera. Era humildade e também sabedoria, sabia de sua pequenez e de sua grandeza. Ninguém mais precisaria saber, pois o único importante era fazer tudo o que o Filho dissesse (cf. Jo 2,5).
A maternidade divina é por ela tão ocultada que os Evangelhos têm pudor em citá-la. Paulo apenas fala de “mulher” (Gl 4,4) que completou em si a plenitude dos tempos trazendo-nos o Filho eterno que ingressou no tempo pelo ventre de Maria, a todos dando-nos a dignidade de filhos de Deus.
No encontro com a prima Isabel, que lhe fala que João pulara no ventre ao sentir a presença do Filho nela, e por revelação agradece a visita da “Mãe do meu Senhor”, Maria esconde seu mistério proclamando a bondade de Deus que olhou para sua humilhação. E serve sua prima aquela que carrega o Senhor de todos.
Maria recebera um segredo de Deus Pai. Deus Pai reservou um segredo a Maria: sua carne não conheceria a corrupção de pecado que não cometera. O Filho reservara para sua Mãe o segredo da vida eterna, da qual participaria como primeira entre os mortais.
A carne que formara a Carne do Redentor foi transfigurada e assunta aos céus.

Nós não guardamos esse segredo

Se Maria, com pudor, guardou o segredo de sua maternidade divina, a Igreja não conseguiu fazer o mesmo: desde o Pentecostes ela se dirige amorosamente à Mulher de Nazaré que lhe deu a existência de tão grande Redentor. De modo particular a Liturgia, que é a Teologia em oração, expressa o privilégio de Maria assunta ao céu. Vem do século IV a solenidade da Assunção festejada em 15 de agosto.
A Liturgia ortodoxa encerra o ano litúrgico celebrando a Assunção e proclama: “Deus, Rei do universo, concedeu-vos privilégios que superam a natureza; assim como no parto vos conservou a virgindade, assim no sepulcro vos preservou o corpo da corrupção e o conglorificou pela divina translação”.
No final do século VIII, o rei Carlos Magno recebe do papa Adriano I um Sacramentário em que, referindo-se à Assunção, louva: “É digna de veneração, Senhor, a festividade deste dia, em que a santa Mãe de Deus sofreu a morte temporal; mas não pôde ficar presa com as algemas da morte aquela que gerou no seu seio o Verbo de Deus encarnado, vosso Filho, nosso Senhor”.
A Assunção da Mãe de Deus foi a grande devoção do Pe. José de Anchieta. Junto com a Festa da Imaculada Conceição, a Assunção foi e é a grande alegria do povo católico latino-americano.
No dia 1º de novembro de 1950, Festa de Todos os Santos, na presença de bispos de todo o mundo, o papa Pio XII proclamou com a Igreja e inspirado pelo Espírito Santo: “pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado que: a imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celeste”.
Apesar de tanta claridade, continuamos pedindo ainda mais luz para penetrarmos o mistério daquela que saudamos como Estrela do mar, Mãe silenciosa do Redentor, sempre virgem e porta do céu.
Pe. José Artulino Besen

NÓS PRECISAMOS DO AMOR DE DEUS

15 de dezembro de 2010
Daniel Lifschitz - «O Pobre»
Caríssimos, se Deus assim nos amou,também nós nos devemos amar uns aos outros (1Jo 4,11)
O apóstolo João fora viver em Éfeso, levando consigo Maria, a mãe de Jesus. Uma tradição conta que ela morrera, tendo sido ali sepultada mas, em seguida foi glorificada no céu em corpo e alma. Outra tradição, talvez melhor fundamentada, afirma que ela retornou a Jerusalém e ali recebeu o prêmio eterno.
Velhinho, João não se cansava de repetir os ensinamentos do Mestre, de quem tinha sido o discípulo predileto. Desde a adolescência acompanhara o Senhor e na velhice compreendia sempre melhor que o centro da mensagem dele tinha sido o amor. É da tradição que o velhinho João, quase não mais conseguindo falar, repetia o tempo todo: “Filhinhos, amai-vos uns aos outros”.
Chama a atenção seu ensinamento: Caríssimos, se Deus assim nos amou, também nós nos devemos amar uns aos outros (1Jo 4,11). A ordem lógica seria: “Se Deus nos amou tanto, devemos amá-lo também”. Mas não: para São João, a resposta ao amor de Deus é o amor ao próximo. Deus é Amor, portanto não sente necessidade de ser amado. Ele quer, isso sim, que nós nos deixemos amar por ele, e só! Porque, sem seu amor, somos incapazes de amar e de viver.
Amor e vida são inseparáveis. O primeiro amor é voltado para nós mesmos. Diz a Escritura: Amarás o teu próximo como a ti mesmo (Mc 12,31). Quem não se ama, não ama. Quem não se aceita, não aceita os outros. Quem só vê defeito em si, acaba vendo nos outros apenas defeitos. Quem não crê em si, não crê nos outros. Quem não aceita o próprio corpo, se acha feio, não vê beleza nos amigos. As pessoas que não se amam são pessimistas: enxergam tudo pelo lado negativo. A jovem que não se ama reclama que não acha namorado. Mas, como um jovem vai gostar dela, se nem ela se suporta!?
Quanta gente definha na vida por não se amar! Arruína a sua existência, faz os outros sofrerem, perde a beleza interior e exterior, porque não se sente amada, valorizada. É um tesouro e julga ser um lixo. Não consegue amar e, por essa razão, não é amada. Pior ainda: quem não se ama, não percebe que os outros a amam e rejeita qualquer amor. Torna-se uma companhia chata, desmancha prazeres, solitária e doente. Dizem que 70% das doenças têm origem em nossa mente, nas mágoas que acumulamos, no sentimento de sermos inúteis, incompetentes, feios.
Os que se amam são seguros, otimistas, alegres, semeiam alegria, coragem. São como o mel que atrai as abelhas: onde elas estão mais gente quer se reunir. A mãe que se ama tem filhos felizes, seguros de si. O jovem que se valoriza não sente solidão. O idoso que se ama vive feliz no seu silêncio, na sabedoria que a vida lhe deu.
Para evitar esses males, o desperdício da vida, Deus quer nos comunicar seu amor. Quando o aceitamos, sentimos a beleza que nós somos, nosso próprio valor e tornamo-nos capazes de amar os outros e por eles ser amados.
Posso ter uma imagem negativa de mim, se Deus nada poupa para me amar?
Como posso não me valorizar se Deus me chama de filho?
Pe. José Artulino Besen

DUAS MULHERES, DOIS CAMINHOS

7 de dezembro de 2010
"Arbe de vie et mort" - de um manuscrito alemão medieval datado aproximadamente de 1481 e autoria de Berthold Furtmeyr. Nele vemos a Árvore da Vida e da Morte. A Virgem e Eva encontram-se em lados opostos à árvore e, nas folhas acima de Maria, um crucifixo e acima de Eva, um crânio que simboliza a morte. A serpente está enrolada em volta do tronco da árvore. Tem aparência elegante e, ao mesmo tempo, sinistra.
«Eis aqui a serva do Senhor,faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1,38).
Com sua decisão, duas mulheres marcaram o destino da humanidade: Eva e Maria. Duas mulheres, dois caminhos. Sua decisão continua a ser proposta ao ser humano no momento de definir seu destino pessoal.
Uma, Eva, foi criada sem pecado. Outra, Maria, concebida sem pecado. A primeira simbolizou o sonho do Criador para seus filhos. A segunda, recuperou este sonho. Ambas foram colocadas diante de Deus. Eva respondeu: Eu quero ser como Deus! (cf. Gn 1,1-6). E Maria: Eis aqui a serva do Senhor! (cf. Lc 1,26-31) A primeira inaugurou a história da morte. A segunda, recuperou a história da vida.
O caminho que Eva escolheu trouxe a morte, o fratricídio, as divisões, a guerra, a fome. O caminho de Maria conduz à vida, à santidade, à fraternidade, à união, à paz, à alegria.
Eva caiu na ilusão de que a criatura pode viver sem o Criador. Maria descobriu que somente em Deus podemos ser verdadeiramente humanos.
Querendo ser como Deus para nunca morrer, Eva trouxe a morte.
Querendo servir a Deus para viver em Deus, Maria venceu a morte.
A história dessas duas mulheres é exemplar para todos. A cada dia também nós somos colocados diante de Deus para darmos nossa resposta pessoal ao encaminhamento que daremos à nossa existência. Às vezes criticamos Eva por seu egoísmo, e nos esquecemos que com freqüência fazemos a mesma coisa: também queremos ser como Deus, viver como se Deus não existisse.
Não podemos prosseguir sem essa resposta, nem há uma terceira resposta possível. Podemos responder eu quero viver como se eu fosse Deus, ou sou servo do Senhor, luz do meu caminho. Está à nossa frente a história de Eva e a história de Maria. A morte ou a vida. A guerra ou a paz. A esperança ou o desespero. Luz ou trevas. A história de Adão e Eva ou a história de Maria e de Jesus.
Nem sempre damos esta resposta conscientemente, mas nossas atitudes são indicativas. Ou nosso estilo de vida a revela nossas opções fundamentais.
Cada pessoa vive do jeito que gosta, mas depois reclama dos efeitos de seu gosto. Há daqueles cuja vida é uma sucessão de tristezas, vinganças, intrigas, egoísmo. E caem na depressão, não vendo mais gosto na vida. Parece-lhes que todos os caminhos estão fechados quando, na verdade, eles os fecharam.
Há casais que se dão o direito das discussões gratuitas, das palavras ofensivas, e depois lamentam dolorosamente a separação não esperada, mas preparada ao longo do tempo.
Uma vida sem Deus é uma vida nas trevas, pois Deus é luz. Inicialmente pode-se ter a ilusão do bem-estar, como o dependente de alguma droga: tudo parece claro, tudo traz prazer. Depois, porém, vem a angústia, a destruição da personalidade, a morte.
Há aqueles que encontraram a paz. Não ficaram livres dos problemas que são vistos como desafios e não como destruição da felicidade. Deus é sempre a luz no seu caminho. E conseguem ser luz para quem cruza seu caminho.
Essas duas mulheres, Eva e Maria, estarão colocadas diante de cada ser humano até o fim dos tempos. Suas respostas serão as duas únicas possíveis para a história humana, que não poderá mais dizer como Eva: A serpente me enganou!, pois já lhes conhece os frutos. Eva era inexperiente, não conhecia a história da morte, o que não é o nosso caso após o Filho de Deus ter-nos revelado o Caminho, a Verdade e a Vida.
No 8 de dezembro a Liturgia celebra a Imaculada Conceição, a concebida sem pecado. E celebra, de modo intenso, aquela que foi concebida sem pecado, mas livremente escolheu nunca pecar. Sua vida foi SIM a Deus.
Com Maria de Nazaré, façamos nossa escolha pela vida plena: a escolha por Deus.
Pe. José Artulino Besen

NATAL – ENCARNAÇÃO E GEOGRAFIA

2 de dezembro de 2010
Natal (Antonio Poteiro)
A Revelação bíblica é transmitida num território que, mesmo invadido por diversos povos e culturas, se renovava pela tradição religiosa e cultural. Para o povo de Israel, a fé, a terra e tradições formavam um conjunto indivisível. Quando exilados na Babilônia, os judeus cantavam, escondidos, os cantos de Sião. Alguns que puderam ouvi-los pediam-lhes que cantassem esses cantos. A resposta: “Como cantar os cânticos do Senhor em terra estrangeira? Se eu te esquecer, Jerusalém, fique paralisada a minha mão direita… (cf. Sl 136, 3-6). A Babilônia não era a terra dos cantares divinos.
A Palavra de Deus se fez carne – natureza humana – num lugar determinado, Nazaré, em uma jovem judia, Maria. O Filho de Deus assumiu a condição humana em tudo, menos o pecado: o chão, a história, a cultura. Toda a vida de Jesus se desenvolveu na normalidade cultural dos pequenos povoados da Palestina: viveu a língua aramaica, as peregrinações festivas, o pastoreio, o cultivo da terra, a pescaria. O lago de Genesaré/Tiberíades e as localidades circunvizinhas revelam como Jesus viveu, o sentido do que falou, os problemas enfrentados. Jesus não foi um ser estranho a seu meio.
Após a ressurreição do Senhor, a missão cristã difundiu-se por toda a terra, em cada território assumindo características próprias. O Cristianismo, especialmente com a missão universalizante de Paulo, assumiu o árduo trabalho da inculturação do Evangelho, trabalho que prossegue em nossos dias. Paulo não se dirige às Igrejas em geral, mas à Igreja que está em Colossos, Filipos, Galácia, Roma… Cada uma vive uma realidade específica e cuja manifestação mística é a Eucaristia..
A fé cristã inculturou-se no mundo romano, grego, sírio, armeno, árabe, indu, depois eslavo, anglo-saxão, germânico aonde iam os missionários. A teologia foi o fruto desse trabalho, com sua função de expressar a Palavra encarnada em Israel e agora vivenciada em outras terras.
A Liturgia, que é a expressão orante da fé, conheceu riquíssima variedade: cada povo tinha seu rito, orações eucarísticas e santos. A Europa antiga e medieval elaborou as Liturgias romana, galicana, galofranca, anglicana, ambrosiana, mosarábica, visigótica etc.. Com a idéia de Império (século VIII-IX), que incluiu a uniformização dos ritos cristãos, perdeu-se essa variedade em favor do rito e santoral romano, tornados praticamente únicos. Em Toledo pode-se ainda usar o rito visigótico, em Milão o ambrosiano, na Índia o siro-malabar e quase se fica nisso, predominando o rito romano.
Como contrapeso, nas Igrejas orientais foi conservada a diversidade brotada do solo e da cultura. Elas testemunham o antiqüíssimo esforço cristão de falar em chãos históricos. Ligando a fé ao chão, sobrevivem a séculos de dominação persa, árabe, turca.

Eucaristia e território

A Encarnação de Jesus supõe, sempre, a encarnação num território: ela se faz visível no povo, na comunidade, na Igreja diocesana. Esta, a diocese, era representada pela comunidade com bispo, presbíteros e diáconos. Com a penetração da fé católica no mundo rural e com o aumento territorial das dioceses, criou-se uma outra unidade pastoral, a paróquia. Essa instituição foi a tal ponto funcional que, hoje, o católico se define pela paróquia onde vive.
Paróquia, de etimologia grega, significa casa no estrangeiro, viver entre estrangeiros e por isso mesmo, grupo de pessoas com interesses comuns, e evoca intimidade de um ninho, lar, proteção. Somos estrangeiros buscando a morada definitiva. Enquanto isso, nossa casa é plantada no mundo, num território determinado onde a Palavra se faz carne e habita entre nós. Constituindo unidade menor, a paróquia com suas comunidades representam um chão de cultura, vizinhança, costumes e solidariedades.
A encarnação supõe a geografia, pois Cristo assumiu uma geografia. A Eucaristia, centro da paróquia, santifica o chão onde é celebrada e o oferece ao Pai que o devolve transfigurado. Na Apresentação das Oferendas, o Presidente bendiz a Deus pelo “fruto da terra”: a expressão provém da Mishná judaica e significa “desta nossa terra”, e do “trabalho do homem” (inclui-se o produzir frutos do Evangelho nessa terra).
Peregrinar de paróquia em paróquia pode significar optar por ser estrangeiro desencarnado, sem a intimidade de um ninho, um lar. Em nossos tempos, grupos e pessoas tendem a se desenraizar da paróquia, separando o chão onde vivem do lugar onde celebram. É mais fácil, pois livra da casa comum, a paróquia. Desaparece o compromisso com o chão sagrado, trocado por reuniões e encontros onde se cultiva a espiritualidade pessoal, mas sem encarnação, freqüentemente transformada em clubismo religioso.
É Natal. É tempo de Cristo encarnar-se em nós e em nossa história, é tempo de nos encarnarmos em nosso chão para nele edificarmos a casa cristã.
Pe. José Artulino Besen
 

O ROSÁRIO, ORAÇÃO DOS POBRES

15 de outubro de 2010
O Rosário - A Oração dos Pobres
O Rosário se insere nas múltiplas formas de oração com que os féis renovam permanentemente seu encontro com Cristo. É uma oração cristológica, não mariana: com Maria contempla a vida de Cristo. Ensina-nos a olhar Cristo com o olhar de Maria. É a oração dos pobres, dos anciãos, dos analfabetos, dos doentes, de todos.
O Rosário é uma oração dos pobres e uma oração “pobre”: nem sempre temos ocasião ou possibilidade de acesso à Palavra e à Eucaristia, mas podemos, com profunda fé, expressar nossa pobreza com uma dezena, um Terço, um Rosário. Quem sabe, outros se servem do mesmo Terço do Rosário com todo o proveito e unção repetindo muitas vezes o Nome “Jesus” ou, como fazem os orientais com a Oração do Coração, repetindo noite e dia o Kyrie eleison, Senhor Jesus, piedade. Também nesta pequena fórmula há profissão de fé e louvor (Jesus é o Senhor), o Nome (Jesus), a invocação (piedade).
É a oração dos velhinhos, dos doentes que, dia após dia, desfiando as contas do rosário lembram com afeto a Virgem Maria, passam em recordação os dias de sua vida. Uma oração humilde, silenciosa, que traz a paz. Quantos cristãos, na sua pobreza, seguram um rosário tão velhinho como sua idade. Emociona vê-los, no dia do sepultamento, com o rosário unindo suas mãos. Quantos segredos, quantas graças estão ali simbolizados.
Fruto da ternura gerada pela devoção à Mãe de Jesus, essa forma de oração traz ternura e paz a uma vida cansada, onde não houve muito lugar para meditações teológicas, leituras bíblicas, mas houve sempre lugar para a humilde meditação da vida do Senhor.
João Paulo II escreveu, em 2003, uma Carta Apostólica com o título “O Rosário da Virgem Maria”. Pedia – e pede – a toda a Igreja que contemple a Cristo com os olhos de Maria, que veja o mundo com o olhar da Mãe de Deus. Podemos olhar Cristo e o mundo com muitos olhares: o olhar de Maria, de João, de Paulo, de Pedro, da pecadora, do filho pródigo, de Zaqueu. No Rosário contemplamos Jesus com os olhos de Maria: a Mãe contemplando a infância de Jesus, a vida pública, seu caminho de dor, sua vitória final sobre a morte, o nascimento da Igreja no Pentecostes. E, no final, contemplamos Maria com os olhos de Jesus que eleva sua Mãe ao céu e a coroa de glória.
Não se quer retornar a um marianismo piedoso, água-com-açúcar, mas retornar a Maria para acompanhar, com ela, os passos do Senhor por nossa salvação. João Paulo II, que tinha como lema TOTUS TUUS (Sou todo teu, Maria) afirma: “a escuta da Palavra de Deus torne-se um encontro vital, na antiga e sempre válida tradição da lectio divina, que faz tirar das Santas Escrituras a Palavra viva que interpela, orienta, plasma a existência”. O Rosário nasce das Sagradas Escrituras, pois, através dos mistérios gozosos, luminosos, dolorosos e gloriosos contemplamos a vida de Jesus narrada nos Evangelhos.

O Rosário – uma oração e muitas orações

Toda oração cristã tem dois tempos essenciais, louvor e invocação. Assim também no Rosário que é a repetição da oração da Ave-Maria: na primeira parte da Ave-Maria repete-se a alegria da Encarnação, com a saudação do Anjo (Lc 1,28) e de Isabel (Lc 1,42). No centro, a invocação terna e confiante do Nome Jesus, único Nome pelo qual podemos recebemos salvação. Segue-se, na segunda parte, a invocação para que Maria interceda por nós agora (nosso presente de pobres pecadores) e na hora da morte (a hora do êxodo para o Pai). A oração da Ave-Maria convida-nos a contemplar, com ela, os mistérios da Salvação operada em nossa existência.
O fundamental é que toda a nossa vida espiritual, nossos exercícios de piedade, tenham um único objetivo: o louvor e a súplica Àquele que pode e quer salvar-nos, o Filho de Deus.
A Igreja oferece hoje 20 Mistérios para acompanhar as 20 dezenas. Mas, podemos também recitar o Terço meditando um texto bíblico, uma parábola, meditando nossa vida cristã, contemplando as pessoas que passaram por nossa vida, nos reconciliando com passagens que deixaram marcas dolorosas, e nos alegrando com tantas recordações felizes que a graça de Deus nos proporciona.
Contemplando Jesus em sua vida terrena, Maria meditava continuamente a Palavra de Deus feito Carne. E hoje, com o Rosário, pedimos a Maria que nos empreste seu olhar para contemplarmos, também nós, a vida de seu Filho e meditarmos suas palavras.
Pe. José Artulino Besen

A ASSUNÇÃO DE MARIA AO CÉU

14 de agosto de 2010
Assunção de Maria aos Céus (Rubens)
A Virgem Maria recebe tem duas celebrações no calendário católico: em 8 de dezembro, a Imaculada Conceição (Maria foi concebida sem pecado no ventre de sua mãe Ana) e, em 15 de agosto, a sua assunção ao céu.
A assunção de Maria significa que, ao terminar sua existência terrena, Maria foi levada ao céu em corpo e alma. Não há sepultura com os restos mortais da Mãe de Jesus: imediatamente após a morte ela foi glorificada. Certamente os Apóstolos que naquele dia estavam em Jerusalém ficaram desolados ao ver morta a Mãe amada do Senhor e que na cruz lhes fora entregue como mãe. Podemos meditar o carinho que os discípulos tinham por essa mulher cheia de graça, de bondade, exemplo de fé total. A tristeza, porém, converteu-se em festa quando viram Maria ser glorificada e ressuscitada.
A morte é conseqüência do pecado e inclui o retorno ao pó donde viemos. Com Maria isso não aconteceu porque ela foi concebida sem pecado e, em toda a sua vida, jamais pecou. Por isso não poderia pagar o preço por algo que não cometera.
Quando o arcanjo Gabriel a visitou para anunciar-lhe que fora escolhida para ser a mãe do Salvador, saudou-a como “cheia de graça”, “bendita entre as mulheres”. Maria era pura graça, pura obediência a Deus, nascera e vivera na total fidelidade à vontade de Deus: “eu sou a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a sua vontade”, respondeu ela a Gabriel. Maria entregara a Deus sua vontade: a vontade de Deus era a vontade dela.
Por causa dessa sua obediência total e por ter gerado o Salvador do mundo, Maria foi a primeira criatura a receber de seu Filho a vida eterna em plenitude, em corpo e alma.

Nossa esperança é a ressurreição

Ao contemplarmos a glória de Maria, devemos nos encher de alegria: também nós queremos e podemos ser glorificados; basta que declaremos a vontade de Deus como nossa vontade, basta que aceitemos ser tocados pela graça do Espírito Santo, ser lavados pela Água viva que jorra do trono de Deus.
Nosso destino não é a tragédia de uma sepultura onde se diz: aqui descansa fulano de tal. Nosso destino é a Casa de Deus na eternidade, nossa casa paterna. O que Maria recebeu logo após a morte, nós também receberemos se seguirmos o mesmo caminho de fidelidade.
A sociedade consumista nos faz pensar que é impossível haver coisa melhor do que a vida terrena e, deste modo, muitos duvidam da eternidade, julgando que nosso endereço final é a sepultura. Chegamos a duvidar da criatividade de Deus, pensando que a vida eterna não pode ser melhor do que essa vidinha que levamos. Deus nos oferece muito mais: oferece a vida divina, a posse dos bens celestes, a libertação dos desejos, do egoísmo, da angústia.
Não é difícil o caminho de Deus: ele mesmo vai à nossa frente. Basta segui-lo com generosidade, e sabendo que não podemos ir sozinhos: nossos irmãos devem ter nossas mãos para conduzi-los. A fraternidade terrestre é condição para a fraternidade celeste.
Festejemos a assunção da Mãe de Deus. E, com Maria, sigamos o caminho de Jesus, aceitemos sua verdade e teremos sua vida.
Pe. José Artulino Besen

MARIA IMACULADA, MÃE DE DEUS

1 de dezembro de 2009
Ícone da Virgem de Vladimir - Séc. XII
Primeiramente a piedade popular e, em seguida, a Liturgia, festejou a Imaculada Conceição de Maria. A humilde invocação de uma jaculatória faz-nos lembrar essa verdade: “Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós”. Na Ladainha Lauretana o gênio cristão sintetizou esse título mariano de modo perfeito em três invocações: Virgem Puríssima, Virgem Santíssima, Virgem Mãe de Deus. Ela é Mãe de Deus porque Puríssima e Santíssima, e é Santíssima por ser a Mãe de Deus.
Quando em meio às controvérsias doutrinais do século V se discutia a divindade do Homem Deus Jesus Cristo, alguns teólogos afirmavam que Cristo Filho de Deus é Deus verdadeiro, mas Jesus Filho de Maria não o seria. A discussão toda tinha um objetivo único: afirmar que aquele homem que viveu em Nazaré e ressuscitou em Jerusalém é Deus verdadeiro. Para preservar a unidade da Igreja, os Bispos da Igreja se reuniram em Éfeso em Concílio Ecumênico, o quarto, no ano 431. Perceberam que em Maria estava o caminho para definir a unidade da humanidade e da divindade em Jesus: se Maria fosse Mãe apenas do Menino de Belém, aquele Menino seria somente humano, e se estaria negando o mistério da Encarnação do Verbo. “Está bem, dizia o Patriarca Nestório: Maria é Mãe de Jesus homem e Deus é Pai de Jesus Deus”. Com isso se dividia a Pessoa de Jesus, nosso Senhor, o que seria blasfemo.
Movidos pelo Espírito Santo, o Pais da Igreja em Éfeso afirmaram a unidade divina e humana de Jesus proclamando Maria Mãe de Deus, a THEOTÓKOS, em língua grega. É a Mãe de Deus porque não se pode dividir em dois o Senhor. Esse título mariano nos faz ingressar na esfera do amor de Deus, onde somente a adoração silenciosa pode expressar a fé e mover à caridade: Maria é Mãe de Deus, é Virgem Filha de seu Filho, é o abismo nos qual se precipitam os verdadeiros adoradores.
A proclamação do dogma da Imaculada Conceição (Maria concebida sem pecado) em 1854, pelo Papa Pio IX, com festa celebrada em oito de dezembro, se insere em toda a reflexão eclesial sobre o mistério de Jesus, Deus de Deus e Luz da Luz. Maria é concebida sem pecado, livre da herança dos filhos de Adão que nascemos com o pecado das origens. Maria inaugura a derrota do antigo Inimigo, Satanás (Gn 3,15).
Talvez essa invocação nos faça perder a grandeza do mistério do amor do Pai por sua Filha predileta, melhor expressada nas três invocações da Ladainha: Virgem Puríssima, Virgem Santíssima, Virgem Mãe de Deus. São João Crisóstomo, patriarca de Constantinopla, meditando sobre Maria afirma: “O nome Theotókos, Mãe de Deus, contém todo o mistério da história da salvação”. Nesse nome está tudo o que dizemos de Cristo e, por conseqüência, tudo o que dizemos da Maria. Ela é a Mulher inimiga da Serpente, a Mulher vestida de Sol, é a Coroa de todos os dogmas: Mãe de Deus, filha de Deus.
Maria não é apenas concebida sem pecado. Ela é puríssima e santíssima. Esse mistério de sua santidade absoluta, que torna virginal todo o seu ser, é fruto do encontro com o Anjo da Anunciação (Lc 1, 26-38): após seu livre “sim”, Maria é totalmente envolvida pelo Espírito Santo. Em sua liberdade, o Espírito Santo a guarda de toda impureza e a torna puríssima e santíssima. O Espírito que personifica a santidade divina concede a Maria personificar a santidade humana: nela é-nos oferecida a santidade divina.
A carne puríssima de Maria dá a carne da natureza humana ao Filho de Deus e João Batista salta de alegria no seio de Isabel quando as duas mulheres se encontram (Lc 1, 39-53).
O Santo que dela nasce é o troféu da humanidade e Maria é o troféu do Santo que gerou. Cada vez que veneramos os belíssimos ícones da Mãe de Deus, como a Virgem de Vladimir, ou do Perpétuo Socorro, entramos no Reino da Beleza onde tudo se resolve no amor salvífico: a Mãe extasiada contempla o Infinito, o Filho carinhosamente acaricia sua Mãe. Tomando o lugar do Filho no colo mariano, ouvimos a palavra de consolo e entrega do Calvário: “Mulher, eis aí teu filho”, “Filho, eis aí tua Mãe”.
 

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