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sexta-feira, 1 de maio de 2009

PAPA PIO XII AOS FIÉIS PORTUGUESES POR OCASIÃO DA SOLENE CELEBRAÇÃO DA COROAÇÃO DE NOSSA SENHORA DE FÁTIMA



13 de Maio de 1946

Veneráveis Irmãos e amados Filhos,

« Bendito seja o Senhor, Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, Pai das misericórdias e Deus de toda a consolação, que nos consola em todas as nossas tribulações » :(1) e com o Senhor seja bendita Aquela que Ele constituiu Mãe de misericórdia, Rainha e Advogada nossa amorosíssima, Medianeira de suas graças, Dispensadora dos seus tesoiros !

Quando, há quatro anos, em pleno rumorejar da mais funesta guerra que viu a história, convosco pela primeira vez subimos em espírito a este monte santo, para convosco agradecermos A. Virgem Senhora de Fátima os benefícios imensos, com que recentemente vos tinha agraciado, ao comum Magnificat juntávamos o grito de filial confiança, para que a Imaculada Rainha e Padroeira de Portugal completasse o que tão maravilhosamente tinha começado.


A vossa presença hoje neste Santuário, em multidão tão imensa que ninguém a pode contar, está atestando que a Virgem Senhora, a Imaculada Rainha, cujo Coração materno e compassivo fez o prodígio da Fátima, ouviu superabundantemente as nossas súplicas.

O amor ardente e reconhecido vos trouxe : e vós quisestes dar-lhe uma expressão sensível condensando-o e simbolizando-o naquela coroa preciosa, fruto de tantas generosidades e tantos sacrifícios, com que, por mão do Nosso Cardeal Legado, acabamos de coroar a Imagem taumaturga.

Símbolo expressivo, que, se aos olhos da celeste Rainha atesta o vosso filial amor e gratidão, primeiro vos recorda a vós o amor imenso, expresso em benefícios sem conta, que a Virgen Mãe tem desparzido sobre a sua « Terra de S. Maria ». Oito séculos de benefícios ! Os cinco primeiros sob a signa de S. Maria de Alcobaça, de S. Maria da Vitória, de S. Maria de Belém, nas lutas épicas contra o Crescente pela constituição da nacionalidade, em todos os heroismos aventurosos dos descobrimentos de novas ilhas e novos continentes, por onde vossos maiores andaram plantando com as Quinas a Cruz de Cristo.


Estes três últimos séculos sob a especial protecção da Imaculada, a quem o Monarca restaurador com toda a Nação reunida em Cortes aclamou Padroeira de seus Reinos e Senhorios, consagrando-lhe a coroa, com especial tributo de vassalagem e com juramento de defender, até dar a vida, o privilégio de sua Conceição Imaculada : a esperando com grande confiança na infinita misericórdia de Nosso Senhor, que por meio desta Senhora, Padroeira e Protectora de nossos Reinos e Senhorios, de quem por honra nossa nos confessamos e reconhecemos vassalos e tributários, nos ampare e defenda de nossos inimigos, com grandes acrescentamentos destes Reinos, para a glória de Cristo nosso Deus e exaltação de nossa Santa Fé Católica Romana, conversão dos Gentios e redução dos Herejes ».(2)

E a Virgen fidelíma não confundiu a esperança que nEla se depositava. Basta reflectir nestes três últimos decénios, pelas crises atravessadas e pelos benefícios recebidos equivalentes a séculos; basta abrir os olhos e ver esta Cova da Iria transformada em fonte manancial de graças soberanas, de prodígios físicos e muito mais de milagres morais. que a torrentes daqui se derramam sobre todo Portugal, e de lá, rompendo pelas fronteiras, se vão espraiando por toda a Igreja e por todo o mundo.


Como não agradacer? ou antes como agradacer condignamente ? Há trezentos anos o Monarca da restauração, em sinal do amor e reconhecimento seu e do seu povo, depôs a coroa real aos pés da Imaculada, proclamada Rainha e Padroeira. Hoje vós todos, todo o povo da Terra de Santa Maria, com os Pastores de suas almas, com o seu Governo, às preces ardentes, aos sacrifícios generosos, às solenidades eucarísticas, às mil homenagens que vos ditou o amor filial e reconhecido, juntastes aquela preciosa coroa e com ela cingistes a fronte de Nossa Senhora da Fátima, aqui neste oásis bendito, impregnado de sobrenatural, onde mais sensível se experimenta o seu prodigioso patrocínio, onde todos sentis mais perto o seu Coração Imaculado a pulsar de imensa ternura e solicitude materna por vós e pelo mundo.


Coroa preciosa, símbolo expressivo de amor e gratidão!

Senão que o vosso mesmo concurso imenso, o fervor das vossas preces, o troar das vossas aclamações, todo o santo entusiasmo que em vós vibra incoercível, e, depois, o sagrado rito, que se acaba de realizar nesta hora de incomparável triunfo da Mãe Ssma., evocam ao Nosso espírito outras multidões bem mais inumeráveis, outras aclamações bem mais ardentes, outros triunfos bem mais divinos, outra hora — eternamente solene — no dia sem ocaso da eternidade : quando a Virgem gloriosa, entrando triunfante na pátria celeste, foi atravez das jerarquias bem-aventuradas e dos coros angélicos sublimada até ao trono da Trindade beatíssima, que, cingindo-lhe a fronte de um tríplice diadema de glória, A apresentou à Corte celestial, assentada à direita do Rei imortal dos séculos e coroada Rainha do universo.


E o Empíreo viu que Ela era realmente digna de receber a honra, a glória, o império, — porque mais cheia de graça, mais santa, mais formosa, mais endeusada, incomparavelmente mais, que os maiores Santos e os Anjos mais sublimes, ou separados ou juntos; — porque misteriosamente emparentada na ordem da União hipostática com toda a Trindade beatíssima, com Aquele que só é por essência a Majestade infinita, Rei dos reis e Senhor dos senhores, qual Filha primogénita do Padre e Mãe estremosa do Verbo e Esposa predilecta do Espírito Santo; — porque Mãe do Rei divino, d'Aquele a quem desde o seio materno deu o Senhor Deus o trono de David e a realeza eterna na casa de Jacob (3) e que de si mesmo proclamou, ter-lhe sido dado todo o poder nos céus e na terra : (4) Ele o Filho Deus, reflecte sobre a celeste Mãe a glória, a majestade, o império da sua realeza; — porque associada, como Mãe e Ministra, ao Rei dos mártires na obra inefável da humana Redenção, lhe é para sempre associada, com um poder quasi imenso, na distribuição das graças que da Redenção derivam.(5)


Jesus é Rei dos séculos eternos por natureza e por conquista; por Ele, com Ele, subordinadamente a Ele, Maria é Rainha por graça, por parentesco divino, por conquista, por singular eleição. E o seu reino é vasto como o de seu Filho e Deus, pois que de seu domínio nada se exclue.

Por isso a Igreia a saúda Senhora e Rainha dos Anjos e dos Santos, dos Patriarcas e dos Profetas, dos Apóstolos e dos Mártires, dos Confessores e das Virgens ; por isso a aclama Rainha dos céus e da terra, gloriosa, digníssima Rainha do universo : Regina caelorum, (6) gloriosa Regina mundi, (7) Regina mundi digníssima : (8) e nos ensina a invocà-la de dia e de noite entre os gemidos e lágrimas de que é fecundo este exílio : Salve Rainha, Mãe de misericórdia, vida doçura, esperança nossa.


É que a sua realeza é essencialmente materna, exclusivamente benéfica.

E não é precisamente essa realeza que vós tendes experimentado? Não são os infindos benefícios, os carinhos inumeráveis com que vos tem mimoseado o Coração materno da augusta Rainha, que vós hoje aqui proclamais e agradeceis? A mais tremenda guerra que nunca assolou o mundo, por quatro longos anos andou rondando às vossas fronteiras, mas não as ultrapassou, graças sobretudo a Nossa Senhora, que deste seu trono de misericórdia, como de sublime ataláia, colocada aqui no centro do país, velava por vós e por vossos governantes ; nem permitiu que a guerra vos tocasse, senão o bastante para melhor avaliardes as inauditas calamidades de que a sua protecção vos preservava.


Vós coroai-la Rainha da paz e do mundo, para que o ajude a encontrar a paz e a ressurgir das suas ruinas.

E assim aquela coroa, símbolo de amor e gratidão pelo passado, de fé e de vassalagem no presente, torna-se ainda, para o futuro, coroa de lealdade e esperança.

Vós, coroando a imagem de Nossa Senhora, assinastes, com o atestado de fé na sua realeza, o de uma ,submissão sua autoridade, de uma correspondência filial e constante ao seu amor. Fizestes mais ainda : alistastes-vos Cruzados para a conquista ou reconquista do seu Reino, que é o Reino de Deus. Quer dizer : obrigastes-vos a trabalhar para que Ela seja amada, venerada, servida à volta de vós, na família, na sociedade, no mundo.

E que nesta hora decisiva da história, como o reino do mal com infernal estratégia emprega todos os meios e empenha todas as forças para destruir a fé, a moral, o Reino de Deus, assim os filhos da luz e filhos de Deus têem de empenhar tudo e empenhar-se todos para o defender, se não se quer ver uma ruina imensamente maior e mai desastrosa que todas as ruinas materiais acumuladas pela guerra.


Nesta luta não pode haver neutros, nem indecisos. É preciso um catolicismo iluminado, convicto, desassombrado, de fé e de mandamentos, de sentimentos e de obras, em particular e em público. O lema que há quatro anos proclamava em Fátima a briosa juventude católica : « Católicos a cem por cem ! »

Na esperança de que os Nossos votos sejam favoravelmente acolhidos pelo Coração Imaculado de Maria e apressem a hora do seu triunfo e do triunfo do Reino de Deus, — como penhor das graças celestes, a vós, Veneráveis Irmãos e a todo o vosso Clero, ao Exmo. Presidente da República, ao ilustre Chefe e aos Membros do Governo, às mais Autoridades civis e militares, a todos vós, amados Filhos e Filhas, devotos peregrinos de Nossa Senhora da Fátima, e a quantos convosco estão unidos em espírito por todo Portugal continental, insular e ultramarino, damos com todo o amor e carinho paterno a Bênção Apostólica.

Notas

1. 2 Cor. 1, 3, 4.

2. Auto da aclamação de N. Senhora da Conceição como Padroeira de Portugal pelas Cortes de Lisboa, em 1646.

3. Luc. 1, 32-33.

4. Matth. 28, 18.

5. Cfr. Leonis XIII Enc. Adiutricem, 5 septembris 1895: Acta, vol. XV, pag. 303.

6. Brev. Rom. 2ª Ant. final. B. Mariae Virg.

7. Off. parv. B. Mariae Virg., Ant. ad Magnif. per annum.

8. Missal. Rom. Comm. in Commem. B. Mariae Virg. de Monte Carmel

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